PortalF1.com - A últimas Fórmula 1 noticias em português!
sábado, 04 de Fevereiro de 2012 | 23:26 1

Ferrari

Ao cumprir o 60º aniversário em 1999, a Ferrari viveu o mais longo jejum da sua história na Fórmula 1. Sem um piloto campeão mundial desde 1979 (Scheckter) e sem um título de construtores desde 1983, a marca de Maranello soma cada vez mais adeptos. Schumacher restituiu a glória à mais famosa marca do circo, vencendo os mundiais de 2000 e 2001. O sonho do "commendatore" Enzo Ferrari continua vivo, anos depois da sua morte...

Enzo Ferrari

Quando o presidente da FIA, o senhor Ballestre, afirmou, em jeito de epitáfio ao desaparecimento de Enzo Ferrari em 1988, que Maranello «é a Roma do Império Automóvel», não escondeu que a Fórmula 1 assistia à morte de um dos seus últimos mitos.

A origem da marca remonta ao final dos anos 20 e à Itália industrial que despertava, então, para o sector automóvel, graças ao "duce" Mussolini, também ele fanático pelos veículos da Alfa Romeu.

A década, com efeito, viu nascer dezenas de pequenas marcas, criadas por jovens industriais, que animaram extraordinariamente o mercado automóvel e despertaram o sector competitivo. Enzo Ferrari não fugiu à regra. Dono de uma distribuidora da Alfa Romeu, fundou a sua marca em 1929, mas, nos anos seguintes, as dificuldades do pequeno construtor eram evidentes, pelo que, Ferrari foi forçado a associar-se à poderosa Alfa Romeu. Um carácter irascível e a própria crise da Alfa levaram-no a romper as amarras com a casa-mãe e, em 1939, a Ferrari estabeleceu-se no mercado por conta própria.

Enzo Ferrari foi dos primeiros contrutores a aceitar a aventura da Fórmula 1 em 1950, prevendo já a enorme montra comercial que o "circo" automóvel proporcionaria mais tarde. Voluntarioso, apostou na Fórmula 1 para ganhar, quase comprometendo o futuro financeiro da marca.

Mas a sorte protege os audazes, e, depois de dois títulos para a Alfa Romeu, a Ferrari vingou-se da sua antiga aliada em 1952 e 53, anos em que Ascari conquistou o campeonato.

Numa carta sarcástica publicada na imprensa milanesa, Enzo Ferrari escreveu: «Sentimos ainda pela Alfa Romeu a imaculada afeição de um filho pela mãe». A Alfa Romeu, porém, estava prestes a desistir da Fórmula 1, e Enzo conseguiu um contrato salvador com a Lancia. A primeira batalha fora ganha pela marca de Maranello...

Os melhores pilotos correram pela Ferrari, facto ao qual não é estranho o carisma da marca, mas também a circunstância de, em 630 Grandes-Prémios de Fórmula 1, a Ferrari ter falhado menos de vinte!

Raro, porém, tem sido o piloto que, ao longo dos anos, não criticou a política que domina a Ferrari e que mina os corredores de Maranello. Lauda, em 1978, referiu: «Têm tantos meios, tantas infra-estruturas, tanta capacidade. E, no entanto, dispersam-se em guerras, tentando envenenar o "velho" com mentiras e calúnias!»

Por outro lado, dizem os italianos, o coração de Enzo Ferrari não tinha espaço para os pilotos. De Ascari, Enzo Ferrari escreveu, quando o piloto saiu para a Lancia: «Invejoso e arrogante: eis um piloto que simboliza a maior parte dos italianos que preferem ganhar para si, sem pensar na marca».

No entanto, entre mais de dez pilotos falecidos ao volante de um Ferrari, o coração endurecido do velho Enzo foi, várias vezes, posto à prova. Em 1959, Mike Hawthorn, o simpático inglês que ganhara o título mundial no ano anterior, morreu num acidente de viação. Dele, Enzo escreveu: «Foi um cavalheiro e um artista da condução!»

Quase vinte anos depois, o "commendatore" assistiu, impotente, pela televisão, ao horrível acidente de NiKi Lauda, em Hockenheim. Lauda, o piloto táctico, o homem que ganhara o título mundial para a marca onze anos depois de Surtees, conquistara o coração de Ferrari com a sua dedicação e profissionalismo.

Conta Marco Forghieri, um dos famosos engenheiros da marca: «Quando soubemos que já lhe tinha sido administrada e Extrema-Unção, num hospital alemão, "il signore" Ferrari empalideceu. Quem diria que, seis semanas depois, Lauda já estava a pilotar novamente?».

Mas o maior choque foi certamente a morte de Gilles Villeneuve, o simpático canadiano que James Hunt indicara à McLaren e que a Ferrari "roubara" num ápice. Aos 86 anos, Enzo Ferrari foi surpreendido com a notícia da morte do seu piloto-fetiche, o homem com que contava para recuperar o título em 1982. Imagine-se o choque do patrão da Ferrari ao saber que o piloto que definira como um "ferrarista típico" não mais correria pela sua marca.

Falecido em 1988, aos 90 anos, Enzo Ferrari legou aos seus continuadores uma marca dinâmica, ao ponto de ser a única "scuderia" que fabrica os seus carros na totalidade. As guerras políticas continuam, a imprensa volta a gritar por triunfos, mas, no fundo, tudo continua igual. Seja com a vitória de quatro Ferraris (Nurburgring'52), seja com a "doppietta" de Schumacher e Irvine (Monza'98), os "tiffosi" rejubilam com o mesmo estusiasmo.

É verdade que o director desportivo, Jean Todt, veio regularizar, na medida do possível, o caos que se vive em Maranello. Mas, como referia o dinâmico Jean Todt, «já houve a era da Alfa, da Cooper, da Lotus, da McLaren e da Williams. E, no entanto, a Ferrari foi a única marca que atravessou todas as eras!»

Muito se escreveu sobre o "cavallino rampante" da Ferrari. A versão mais corrente, reza que Enzo, ao conhecer a mãe de um dos mais bravos aviadores italianos na I Guerra Mundial - o conde Francesco Baracca -, adoptou o símbolo do regimento de cavalaria no qual o conde começara a carreira militar: um cavalo rampante. Como toque pessoal, Enzo coloriu o fundo do símbolo de amarelo, a cor de Modena (a sua cidade).