Ao cumprir o 60º aniversário em 1999, a Ferrari
viveu o mais longo jejum da sua história na Fórmula 1. Sem um piloto campeão mundial desde 1979 (Scheckter) e sem um título
de construtores desde 1983, a marca de Maranello soma cada vez mais adeptos. Schumacher restituiu a glória à mais famosa marca do circo,
vencendo os mundiais de 2000 e 2001. O sonho do "commendatore" Enzo Ferrari continua vivo, anos depois da sua morte...
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Quando o presidente da FIA, o senhor Ballestre, afirmou, em jeito de epitáfio ao desaparecimento de Enzo Ferrari em 1988, que Maranello «é a Roma do Império Automóvel», não escondeu que a Fórmula 1 assistia à morte de um dos seus últimos mitos. A origem da marca remonta ao final dos anos 20 e à Itália industrial que despertava, então, para o sector automóvel, graças ao "duce" Mussolini, também ele fanático pelos veículos da Alfa Romeu. |
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A década, com efeito, viu nascer dezenas de pequenas marcas, criadas por jovens industriais, que animaram extraordinariamente o mercado automóvel e despertaram o sector competitivo. Enzo Ferrari não fugiu à regra. Dono de uma distribuidora da Alfa Romeu, fundou a sua marca em 1929, mas, nos anos seguintes, as dificuldades do pequeno construtor eram evidentes, pelo que, Ferrari foi forçado a associar-se à poderosa Alfa Romeu. Um carácter irascível e a própria crise da Alfa levaram-no a romper as amarras com a casa-mãe e, em 1939, a Ferrari estabeleceu-se no mercado por conta própria. |
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Enzo Ferrari foi dos primeiros contrutores a aceitar a aventura da Fórmula 1 em 1950, prevendo já a enorme montra comercial que o "circo" automóvel proporcionaria mais tarde. Voluntarioso, apostou na Fórmula 1 para ganhar, quase comprometendo o futuro financeiro da marca. Mas a sorte protege os audazes, e, depois de dois títulos para a Alfa Romeu, a Ferrari vingou-se da sua antiga aliada em 1952 e 53, anos em que Ascari conquistou o campeonato. Numa carta sarcástica publicada na imprensa milanesa, Enzo Ferrari escreveu: «Sentimos ainda pela Alfa Romeu a imaculada afeição de um filho pela mãe». A Alfa Romeu, porém, estava prestes a desistir da Fórmula 1, e Enzo conseguiu um contrato salvador com a Lancia. A primeira batalha fora ganha pela marca de Maranello... Os melhores pilotos correram pela Ferrari, facto ao qual não é estranho o carisma da marca, mas também a circunstância de, em 630 Grandes-Prémios de Fórmula 1, a Ferrari ter falhado menos de vinte! Raro, porém, tem sido o piloto que, ao longo dos anos, não criticou a política que domina a Ferrari e que mina os corredores de Maranello. Lauda, em 1978, referiu: «Têm tantos meios, tantas infra-estruturas, tanta capacidade. E, no entanto, dispersam-se em guerras, tentando envenenar o "velho" com mentiras e calúnias!» |
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Por outro lado, dizem os italianos, o coração de Enzo Ferrari não tinha espaço para os pilotos. De Ascari, Enzo Ferrari escreveu, quando o piloto saiu para a Lancia: «Invejoso e arrogante: eis um piloto que simboliza a maior parte dos italianos que preferem ganhar para si, sem pensar na marca». No entanto, entre mais de dez pilotos falecidos ao volante de um Ferrari, o coração endurecido do velho Enzo foi, várias vezes, posto à prova. Em 1959, Mike Hawthorn, o simpático inglês que ganhara o título mundial no ano anterior, morreu num acidente de viação. Dele, Enzo escreveu: «Foi um cavalheiro e um artista da condução!» Quase vinte anos depois, o "commendatore" assistiu, impotente, pela televisão, ao horrível acidente de NiKi Lauda, em Hockenheim. Lauda, o piloto táctico, o homem que ganhara o título mundial para a marca onze anos depois de Surtees, conquistara o coração de Ferrari com a sua dedicação e profissionalismo. Conta Marco Forghieri, um dos famosos engenheiros da marca: «Quando soubemos que já lhe tinha sido administrada e Extrema-Unção, num hospital alemão, "il signore" Ferrari empalideceu. Quem diria que, seis semanas depois, Lauda já estava a pilotar novamente?». Mas o maior choque foi certamente a morte de Gilles Villeneuve, o simpático canadiano que James Hunt indicara à McLaren e que a Ferrari "roubara" num ápice. Aos 86 anos, Enzo Ferrari foi surpreendido com a notícia da morte do seu piloto-fetiche, o homem com que contava para recuperar o título em 1982. Imagine-se o choque do patrão da Ferrari ao saber que o piloto que definira como um "ferrarista típico" não mais correria pela sua marca. |
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Falecido em 1988, aos 90 anos, Enzo Ferrari legou aos seus continuadores uma marca dinâmica, ao ponto de ser a única "scuderia" que fabrica os seus carros na totalidade. As guerras políticas continuam, a imprensa volta a gritar por triunfos, mas, no fundo, tudo continua igual. Seja com a vitória de quatro Ferraris (Nurburgring'52), seja com a "doppietta" de Schumacher e Irvine (Monza'98), os "tiffosi" rejubilam com o mesmo estusiasmo. É verdade que o director desportivo, Jean Todt, veio regularizar, na medida do possível, o caos que se vive em Maranello. Mas, como referia o dinâmico Jean Todt, «já houve a era da Alfa, da Cooper, da Lotus, da McLaren e da Williams. E, no entanto, a Ferrari foi a única marca que atravessou todas as eras!» Muito se escreveu sobre o "cavallino rampante" da Ferrari. A versão mais corrente, reza que Enzo, ao conhecer a mãe de um dos mais bravos aviadores italianos na I Guerra Mundial - o conde Francesco Baracca -, adoptou o símbolo do regimento de cavalaria no qual o conde começara a carreira militar: um cavalo rampante. Como toque pessoal, Enzo coloriu o fundo do símbolo de amarelo, a cor de Modena (a sua cidade). |