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quinta-feira, 20 de Novembro de 2008 | 00:05 (F1:26)
Mário Cabral

De 1950 a 1999, apenas quatro portugueses conseguiram o acesso à restrita competição automobilística do Mundo: Mário "Nicha" Cabral, Pedro Matos Chaves, Pedro Lamy e Tiago Monteiro. O primeiro disputou quatro Grandes-Prémios, o segundo participou em 14 pré-qualificações e Pedro Lamy correu em 32 provas, terminando o G.P. da Austrália em 6º lugar, naquele que foi o primeiro ponto de um português na Fórmula 1. Em 2005 Tiago Monteiro ao volante de um Jordan conseguiu o maior feito dos portugueses ao alcançar um 3º lugar no GP dos Estados Unidos. O pódio foi conseguido em circunstâncias muito especias com apenas 6 carros a sair para a corrida.

Monsanto, 23 de Agosto de 1959. Entre os 16 participantes no segundo G.P. de Portugal, contava-se o Cooper-Maseratti nº18 de Mário Araújo Cabral, que se tornou, assim, o primeiro português na Fórmula 1. De pequeno, guardou o diminutivo de "Nicha". E, nas estradas de Monsanto, com apenas 25 anos, o piloto português era um dos mais jovens do todo o "circo" da Fórmula 1.

A sua participação teve o dedo de uma equipa, a Centro Sud, e o apoio do ACP, que importaram de Itália um Cooper-Maseratti de algum nível competitivo. Na primeira prova, Mário Cabral não desiludiu: terminou em 10º lugar e só perdeu o nono posto para Tony Brooks «porque, das boxes, fizeram-me muitos sinais, e eu pensei que era para deixar passar o Brooks. Afinal era o contrário...»

No ano seguinte, de novo com um Cooper-Maseratti, "Nicha" Cabral disputou o G.P. de Portugal, onde sofreu um acidente. Nesse mesmo ano, por duas vezes, não pôde participar em Grandes-Prémios do Mundial de Fórmula 1. «Em Monza, os carros não chegaram a tempo, e a viagem foi em vão; para Riversidade (Estados Unidos), não houve verba para atravessar o Atlântico e disputar o último Grande-Prémio da temporada».

Seguiram-se provas a contar para outras categorias ("Nicha" chegou a ganhar o G.P. do Brasil em Fórmula 2), mas o "bichinho" da Fórmula 1 manteve-se. Sempre com o apoio financeiro da mãe e tendo servido no restaurante "Courdon Rouge", por exemplo, para disputar uma prova em Inglaterra, Mário Cabral viveu as dificuldades próprias do início da modalidade. «Curiosamente» - diz - «o dono desse restaurante foi o meu primeiro patrocinador!»

Mário Cabral

Em 1963, surgiu mais uma oportunidade. Mário Cabral, ao volante de um Cooper-Climax, disputou o difícil G.P. de Nurburgring, tendo desistido com problemas na caixa de velocidades; semanas depois, preparado para correr em Monza, teve de ceder a sua viatura a Giancarlo Baghetti, devido ao acidente deste último nos treinos: «Fiquei apeado porque a disciplina da equipa estava em primeiro lugar». No ano seguinte, a última participação, a quarta: mais uma vez, em Monza, "Nicha" Cabral pilotou um ATS, mas um problema na ignição provocou o seu abandono precoce.

Dos muitos pilotos geniais das décadas de 50 e de 60, "Nicha" Cabral, hoje com 65 anos, não tem favoritos: «Vi correr o Fangio, o Hawthorn, o Moss, o Brooks, o Ascari (em Sport). Só não vi o grande Farina! Qualquer deles era genial, e éramos todos amigos dentro da Fórmula 1. Recordo-me, por exemplo, de tremendo auxílio que o Maurice Trintignant me deu no G.P. de Pau em 1961 e que me permitiu fazer tempos muito bons para quem corria ali pela primeira vez. Foi um auxílio desinteressado, em nome de uma amizade! Hoje, infelizmente a Fórmula 1 já não é bem assim!»