O circuito de Adelaide foi palco em 93, de um momento importante
na história do automobilismo ao seu mais alto nível: Alain Prost
virou uma página e deu por finda a sua carreira de piloto, ao cabo
de quatro títulos mundiais em 199 Grandes-Prémios, 51 vitórias
(record), 33 «pole-positions», 41 melhores voltas em corrida
(record) e 798,5 pontos contabilizados.
Alain Prost deixa a Austrália com o sentimento do dever
cumprido. É que o caminho percorrido pelo francês desde Buenos
Aires, a 13 de Janeiro de 1980, onde alinhou no seu primeiro
Grande-Prémio e conquistou o primeiro ponto para o Mundial de
Pilotos ao volante de um McLaren-Ford, longe do valor competitivo
dos futuros monolugares vermelhos e brancos, pode traduzir-se pela
expressão carreira de sucesso. Para a sua última temporada (em
1993), Prost calculou bem os passos necessários para se sagrar
campeão mundial, o seu grande objectivo, talvez mesmo a única
motivação.
Na Argentina, o francês ignorava, sem dúvida, que entraria para
a história da Formula 1 como um dos maiores pilotos de todos os
tempos, lado a lado com nomes míticos das corridas de automóveis
como Juan Manuel Fangio, Jack Brabham, Jackie Stewart ou Nikki
Lauda.
Treze temporadas volvidas desde 13 de Janeiro de 1980, 798,5
pontos, 51 vitórias e quatro títulos mundiais acumulados. Um
palmarés de prestígio, o mais glorioso de toda a Fórmula 1
actual.
Desde a sua primeira vitória, a 5 de Julho de 1981, em França,
ao quarto título mundial, a 26 de Setembro, em Portugal, Prost não
parou de acumular êxitos, construindo uma carreira verdadeiramente
fora do comum.
Na hora do balanço, as recordações poderão misturar-se na cabeça
de Prost. As boas - o primeiro êxito em Dijon, em 1981, e o
primeiro título, garantido a 6 de Outubro de 1985, no Grande-Prémio
da Europa, realizado em Brands-Hatch - e as más - o título falhado
em 1983 com a Renault, o desafio da Ferrari «manchado» com um
divórcio doloroso, as mortes de pilotos amigos (Gilles Villeneuve e
Didier Pironi), a rivalidade exacerbada com Ayrton Senna também ele
desaparecido das pistas anos mais tarde.
Talvez por isso, quando se pede ao quádruplo campeão do Mundo
que indique a melhor e a pior recordação da sua carreira, Prost não
hesita: «A melhor, incontestavelmente, é a minha vitória no
Grande-Prémio da Austrália de 1986, em Adelaide. Foi nesse ano o
meu melhor campeonato e o meu mais belo triunfo. De longe» E a pior
recordação: «Donington, 93», responde.
O dia 11 de Abril de 1993, marcado por muita chuva no circuito
britânico, deixará uma ferida profunda no campeão francês. Que
jamais cicatrizará. «A partir desse dia, nada foi como dantes. Foi
nessa altura que a decisão de parar se gravou no meu espírito».
Quando Prost abandonou a McLaren, no final de 1989, o engenheiro
britânico John Barnard afirmou: «Agora é que a McLaren vai
constatar que perdeu mais do que um piloto». Em 1993, no circuito
de Adelaide, a Fórmula 1 apercebeu-se que perdeu mais do que um
quádruplo campeão mundial. O vazio poderá ser enorme. E Ayrton
Senna estará isolado no confronto com a nova geração: Michael
Schumacher, Jean Alesi, e outros, Rubens Barrichello, Mika
Hakkinen... Porém, anos mais tarde, a Fórmula 1 ficou
definitivamente órfã ao perder o último «monstro» das pistas:
Ayrton Senna da Silva, 34 anos, tricampeão mundial.
Photograph: Simon Bruty/ALLSPORT