Cinco exemplos para recordar: one hit wonders

Por Paulo Teixeira - 4 Comentários

A expressão "one hit wonder" provêm do mundo da musica quando se quer falar dos cantores ou bandas que tiveram uma musica nos "tops" e nunca mais tiveram um sucesso semelhante. Exemplos desses há às centenas, algumas delas ditas de modo injusto, digo eu.

O automobilismo tem muitos "one hit wonders", e a Formula 1, em particular, também. Alguns podem ser injustos, pois tratou-se de um sucesso no emio de muitos azares, mas também tem a ver com pilotos que simplesmente "estavam ali" na hora certa, no momento certo. Na semana em que morre Peter Gethin, um desses heróis que conseguiram ter a sua tarde de glória ou os seus "15 minutos de fama", como diria Andy Warhol, vou falar de outros "one hit wonders". Uns porque muito lutaram para conseguir, outros porque estavam no lugar certo, em momentos particularmente polémicos.

Eis cinco dos muitos exemplos que existiram ao longo da história:

Giancarlo Baghetti, Reims, 1961

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O italiano Giancarlo Baghetti entrou para a história como tendo a melhor estreia de sempre: ganhar na sua corrida de estreia, no GP de França de 1961, batendo milimetricamente o Porsche do americano Dan Gurney. Nesse ano, o carro da moda era o Ferrari Tipo 156 "nariz de Tubarão", mas a sua inscrição era... privada, e ele nem sequer era o piloto escolhido inicialmente. No inicio desse ano, uma sociedade de empresários tinha comprado esse carro para que ele pudesse correr em algumas corridas extra-campeonato, em Itália. Contudo, quando vence corridas de Siracusa e Napoles, a sociedade aluga um Tipo 156 para ele correr o GP de França.

Inscrito com o numero 50, era o quarto carro da equipa, que oficialmente tinha inscrito Wolfgang von TripsPhil Hill e Richie Ginther. Mas os carros oficiais têm problemas, com Von Trips e Ginther a abandonarem e Hill sofre problemas mecânicos que o deixam com duas voltas de atraso, dá por si a lutar pela liderança com o americano Dan Gurney, no seu Porsche 718. A luta foi taco-a-taco, mas na última curva da última volta, Baghetti apanha o vácuo do Porsche e ultrapassa-o, ganhando por apenas... um centésimo de segundo!

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No ano em que a Ferrari domina o campeonato, a vitória de Baghetti deve ter sido talvez a mais inesperada de sempre da Formula 1, e abre enormes expectativas no pelotão, que são recompensadas no ano seguinte, quando é contratado para ser piloto oficial da Ferrari. Mas os resultados são decepcionantes e quando os engenheiros da marca se revoltam contra Enzo Ferrari e abandonam a equipa, Baghetti vai com eles e participa na aventura da A.T.S (Automobili Turismo e Sport), que participam na temporada de 1963 com o Tipo 100, que se revela um rotundo fracasso.

A sua carreira basicamente termina ali, mas continua a correr esporadicamente até 1968, onde tem um sério acidente numa prova de Turismo em Monza. Baghetti torna-se depois fotógrafo e jornalista profissional em Itália e morre a 27 de Novembro de 1995, com 62 anos, vitima de cancro.

Ludovico Scarfiotti, Monza, 1966

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Em 1966, a Ferrari vivia em agitação. John Surtees tinha saído da equipa após a sua épica vitória em Spa-Francochamps, em desacordo com o comando técnico da Scuderia. O comando da equipa ficou nas mãos de Lorenzo Bandini, e como segundo piloto, foi chamado o inglês Mike Parkes, que até deu nas vistas, sendo segundo no GP de França, em Reims. Mas em Monza, Ferrari inscreveu um terceiro carro para outro italiano:Ludovico Scarfiotti. Nascido em 1933 em Turim, e familiar de Gianni Agnelli, o patrão da FIAT, corria na equipa de Sport, fazendo participações ocasionis na equipa de Formula 1, e até então tinha corrido apenas em cinco corridas, das quais só tinha conseguido um ponto. Mas tinha palmarés, pois tinha ganho as 24 Horas de Le Mans em 1963, fazendo equipa com Bandini, e por duas vezes tinha sido campeão europeu de montanha.

No GP de Itália daquele ano, a Ferrari inscreveu um terceiro carro, para Scarfiotti, que alinhou ao lado de Parkes e Bandini. A Scuderia ficou com a primeira linha, com Parkes em primeiro e Scarfiotti em segundo, para delirio dos "tiffosi". Na partida, Scarfiotti atrasou-se um pouco, caindo para sétimo lugar no final da primeira volta, mas depois colou-se aos seus adversários, e aproveitando os problemas de Clark, Stewart e Brabham e do acidente de Richie Ginther(que escapou sem qualquer ferimento), apanhou Parkes e ultrapassou-o, Na volta 32, John Surtees retira-se e deixa Scarfiotti na liderança até ao final, dando a prmeira vitória de um italiano na "rossa" desde 1952, com Alberto Ascari. Essa foi a corrida que Jack Brabham foi oficialmente coroado como campeão do Mundo, aos 40 anos de idade.

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Contudo, foi o seu único momento de glória. No inicio de 1967, Bandini morre no Mónaco e Parkes fica gravemente ferido na corrida seguinte, na Bélgica, em acidentes com os carros da Ferrari. Temeroso com estes carros, decide sair da equipa e não corre durante boa parte do ano. Em 1968, volta à Formula 1 como piloto da Cooper, enquanto guia ao serviço da Porsche no Europeu de montanha. A 8 de Junho de 1968, Scarfiotti fazia uma subida de teste na rampa de Rossfeld, quando o seu carro saiu de estrada, sofrendo um acidente fatal aos 33 anos de idade. Desde então, a sua vitória de 1966 é a última ganha, até aos dias de hoje, por um italiano ao volante da Ferrari.

Vittorio Brambilla, Zeltweg, 1975

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Vittorio Brambillanasceu em Monza a 11 de Novembro de 1937 e devido ao ambiente que se vivia, domingo sim, domingo não, nas suas redondezas, apaixonou-se por tudo que era mecânico, tal como o seu irmão Ernesto, ou "Tino", como chamavam os amigos. Começou a correr no motociclismo, mas em 1968, aos 31 anos, segue os passos do seu irmão e passa a correr em automóveis.

Agressivo a correr e muito pouco correto - o seu apelido era o de "Gorila de Monza" - Brambilla cedo ganha corridas e competições. Torna-se campeão italiano de Formula 3 em 1972, e vence corridas na Formula 2 no ano seguinte, antes de dar o salto para a Formula 1 em 1974, ao volante de um March laranja, com a cor do seu patrocinador, a Beta. É no ano seguinte que dá nas vistas, graças ao seu estilo rápido e agressivo. Dá nas vistas na fatídica corrida de Montjuich, faz a "pole-position" em Anderstorp, mas a sua coroa de glória é em Zeltweg, palco do GP da Áustria.

Ficando num aceitável oitavo posto na qualificação, a corrida tinha sido marcada pouco tempo antes pelo acidente deMark Dohonue, em que dois comissários de pista morreram e o próprio piloto ficara em estado grave - iria morrer três dias depois. Momentos antes do começo da corrida, a chuva faz presença e os pilotos tem de trocar de pneus, adiando a partida por quase uma hora. Quando começou, Brambilla faz um arranque fabuloso, subindo para o terceiro lugar, e pouco depois, estava a pressionar o líder,James Hunt, para ficar com a liderança.

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Enquanto que Brambilla gozava a liderança, nos bastidores, os pilotos tentavam convencer a organização para para a corrida na volta 29, devido às condições de pista cada vez piores. A bandeira vermelha foi mostrada, mas um erro fez com que se mostrasse também a bandeira de xadrez, significando que a corrida tinha acabado. O italiano tinha cortado em primeiro, mas o mais incrível aconteceu depois, quando… se despistou. Excitado, tinha largado as mãos do volante e entrara em "acquaplaning".

Aquela tinha sido a sua tarde de vitória, mas o italiano não mais teve oportunidades de voltar a repetir o feito. Passou para a Surtees em 1977 e a sua carreira foi interrompida no ano seguinte, quando foi um dos pilotos envolvidos na carambola da primeira curva do GP de Itália, que custou a vida do suecoRonnie Peterson. Brambilla levou com uma roda no seu capacete e ficou em coma por alguns dias. Voltou a correr pela Alfa Romeo em 1979 e 80, antes de se retirar de vez. Morreu a 26 de Maio de 2001, de ataque cardíaco, enquanto cortava a relva do jardim de sua casa.

Alessandro Nannini, Suzuka, 1989

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Ao contrário de Brambilla, Nannini era bem mais refinado. Nascido a 7 de Julho de 1959 em Siena, numa família de negociantes de café, é o irmão mais novo de uma das cantoras mais conhecidas de Itália, Gianna Nannini. Correu nas categorias de base, ao mesmo tempo que era piloto de Endurance pela Lancia, ao lado de pilotos comoEddie Cheever, Michele AlboretoeRiccardo Patrese. Em 1986 tem a sua oportunidade de correr na Formula 1, ao serviço da Minardi.

Apesar de ter tido suas temporadas sem pontuar, as suas performances em pista não passam despercebidas e é contratado pela Benetton no inicio da temporada de 1988. Consegue dois pódios nesse ano e na temporada seguinte, com a saída do belga Thierry Boutsen, é o primeiro piloto da equipa. As suas performances melhoram significativamente ao longo dessa temporada, mas é na penúltima prova do ano que consegue a sua coroa de glória. E sendo participante secundário de uma das decisões mais polémicas da história da Formula 1.

No GP do Japão de 1989, Nannini era um distante terceiro classificado quando na frente, os dois pilotos da McLaren, Ayrton Senna e Alain Prost, batalhavam pelo título mundial. Quando os dois colidiram, na chicane do circuito, na volta 46, Prost abandonou e Senna cortou a chicane para regressar à pista, com o nariz partido. Nannini chegou-se a Senna e assumiu a liderança, quando este foi às boxes. Pouco depois, com nariz novo, o brasileiro volta à liderança e corta a meta no primeiro posto. Mas a FIA decide que Senna fez uma manobra ilegal, desclassificando-o e dando a vitória ao segundo classificado, Nannini. Inesperadamente, o italiano sobe ao lugar mais alto do pódio e dá à Benetton a sua única vitória da temporada, mas a corrida tinha a sombra do que se passara algumas voltas antes.

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Alessandro Nannini continuou a correr pela Benetton em 1990 e as suas performances o colocaram na orbita da Ferrari, que lhe ofereceu um contrato. Surpreendentemente, recusou. Mas a 7 de Outubro de 1990, um domingo, Nannini tem um acidente no helicóptero que tinha acabado de comprar quando aterrava no jardim da casa dos seus pais, em Siena. Fica com o seu braço direito decepado, devido ao rotor do seu helicóptero e é internado por uns dias, onde é submetido a operação de reconstrução.

É bem sucedido, mas perde parte da sua mobilidade e a sua carreira na Formula 1 termina ali. Mas isso não impede de correr no automobilismo, especialmente no DTM, ao serviço da Alfa Romeo. Hoje em dia vive em Siena, onde dirige o negócio de cafés da família.

Olivier Panis, Mónaco, 1996

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Olivier Panis, nascido a 2 de Setembro de 1966 nos arredores de Lyon, teve uma boa carreira como piloto em várias equipas, como a Ligier, Prost, BAR e Toyota, entre 1994 e 2004. Campeão da Formula 3000 em 1993, batendo o português Pedro Lamy, conseguiu alguns pódios, e foi um dos contendores do título na primeira metade de 1997, até que um acidente no GP do Canadá o ter fracturado ambas as pernas e o colocar fora de prova durante boa parte da temporada. Mas a sua coroa de glória foi o GP do Mónaco de 1996, numa prova onde só acabaram… quatro carros.

A sorte de Panis foi o de ter aguentado o seu Ligier-Mugen Honda numa pista molhada, enquanto que os outros desistiam, ora por problemas mecânicos, ora porque os pilotos caiam nas armadilhas que o circuito citadino é pródigo. Só no final da primeira volta dessa corrida, já seis pilotos, incluindo... Michael Schumacher, tinham sido colocados fora de pista, entre os quais os Minardi de Pedro Lamy e Giancarlo Fisichella, que se tinham eliminado um ao outro nos primeiros metros da corrida...

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No final, classificaram-se oficialmente sete pilotos, mas na prática apenas quatro tinham cortado a meta no momento da bandeirada de xadrez. E um deles, Heinz-Harald Frentzen, estava parado nas boxes! Era não só a primeira vitória de Panis, mas também foi a primeira de um francês desde 1988, e a primeira da Ligier desde 1981, e a última de sempre de um piloto francês num carro francês. A equipa iria ser comprada a meio desse ano por Alain Prost e seria rebaptizado com o seu apelido no ano seguinte. Panis teria bons desempenhos em 1997, com dois pódios, mas um grave acidente no Canadá, onde fracturou ambas as pernas, o fez ficar de fora boa parte da época.

Panis correu até ao final de 2004 em equipas como a BAR e a Toyota, mas nunca mais voltou a ter uma tarde de glória como aquela. Depois dos seus dias na Formula 1, corre no Verão na Le Mans Series ao serviço da ORECA, enquanto que nos dias de inverno, passa os dias a brincar com um carro no Troféu Andros, onde este ano vence corridas num Skoda Fabia. 

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Sobre o Autor

É o "alter ego" de Paulo Alexandre Teixeira, um português que nasceu no Brasil a 12 de Julho de 1976. É jornalista de profissão, formação e convicção, com tendência para escrever compulsivamente quando o assunto é automobilismo. É solteiro, gosta do Benfica (ninguém é perfeito...), e vê Formula 1 desde 1982.

4 Comentários on "Cinco exemplos para recordar: one hit wonders"

  1. Indivíduo Meliante quarta-feira, 7 de dezembro de 2011 14:52:20

    Paulo, corrigindo só uma info: o último francês que havia vencido gps na Fórmula 1 antes do Panis foi o Jean Alesi, que venceu o GP do Canadá de 1995 pela Ferrari.

  2. Sandro Varela quarta-feira, 7 de dezembro de 2011 14:57:20

    Oi Speeder... Acho que o José Carlos PAce, Brasil 75 merecia estar nesta lista. Abs

  3. Paulo Abreu quarta-feira, 7 de dezembro de 2011 18:38:56

    Muito bom, como sempre! Fiz uma lista assim, um pouco maior, com todos os pilotos que venceram uma corrida apenas na F1: http://voltarpida.blogspot.com/2009/11/primeira-e-unica.html Abraços!

  4. António afrancis Tomé quarta-feira, 7 de dezembro de 2011 19:40:03

    Foram as tais vitórias improváveis. Muito interessante e a valer a pena a leitura. Um abraço

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