Jacques Villeneuve gostava de seguir os passos do pai e
perguntou à sua mãe se podia correr em desportos motorizados. A
mãe, Joann, prometeu que o filho podia correr em karts, se
melhorasse a nota a matemática na escola. Estávamos em 1984, dois
anos depois da morte de Gilles Villeneuve.
Joseph Gilles Henri Villeneuve nasceu no Quebec em 1950. O seu
despertar para as corridas de velocidade começou bem cedo. Conta-se
que Gilles teve a sua primeira experiência de condução, aos 11
anos, numa carrinha que pertencia ao seu pai. A paixão pelos
motores nunca mais o largou; já com a carta, aos 16 anos,
Villeneuve terá entrado numa corrida que terminou com o jovem
Gilles no hospital. Sem qualquer tipo de medo, o canadiano começou
a entrar em corridas dedrag(ou de aceleração) aos 17 anos. Ele
gostava de conduzir rápido mas cedo se fartou deste tipo de
corridas. Como a F1 ainda estava bem longe do alcance de Gilles,
ele começou a correr em motas de neve. Foi tão impressionante que,
logo no segundo ano, foi patrocinado por um fabricante e tornou-se
campeão do Canadá. Tinha 18 anos, já era casado e pai de dois
filhos.

A família Villeneuve. Gilles, Joann, Melanie e
Jacques
Um desses filhos era Jacques Joseph Charles Villeneuve, nascido
em 1971. Depois de ter melhorado na matemática, em 1985, conduziu
um kart de 100cc em Imola. Parece que conduziu bem o suficiente
para impressionar os donos do circuito, que o deixaram conduzir no
circuito de corridas com um Formula Quatro nesse mesmo dia. Pouco
tempo depois, o jovem Villeneuve entrou numa escola de pilotos no
Quebec, a mesma que o seu pai tinha frequentado antes de correr na
Formula Atlantic.
Nesse campeonato, Gilles dominou com uma equipa pobre. O
canadiano era um piloto sem dinheiro; vendeu a casa e dormia com a
mulher e dois filhos numa autocaravana para poder correr. Mas
conseguiu um patrocinador norte-americano que acreditou no
potencial dele e o ajudou a manter-se na Formula Atlantic. Com esse
apoio venceu o título canadiano e também o título americano da
categoria. Na última corrida do ano, o Grand Prix Trois-Rivières,
(que atraía alguns nomes da F1 numa altura em que ainda havia
provas fora do campeonato) o canadiano venceu. Isto aparentemente
levou James Hunt, piloto da McLaren, a comentar com o seumanagerque
ele devia contratá-lo. Foi assim que Gilles Villeneuve conseguiu um
contrato com a McLaren para 1977.
O seu filho passou por mais categorias até chegar à F1. Aos 17
anos entrou numa prova da Alfa Cup, onde terminou em décimo; foi
depois para a Formula Três italiana onde esteve três anos. Em 1992
correu pela Formula Três japonesa, tendo terminado em segundo no
campeonato. Isso valeu a Jacques um convite para uma corrida de
Formula Atlantic, por onde o seu pai tinha também passado. Em 93
venceu cinco de 15 corridas e terminou a temporada de estreia em
terceiro lugar. Ainda passou pela IndyCar, onde esteve dois anos.
No primeiro acabou em sexto, com uma vitória na Indy500 e onde
recebeu o prémio de melhor estreante. Em 95, o seu segundo ano na
categoria, venceu novamente em Indianápolis e noutras três
corridas, ganhando o campeonato e chamando a atenção de Frank
Williams. Villeneuve foi o último campeão da CART IndyCar antes do
campeonato se separar em duas competições diferentes, a IRL e a
Champ Car.

Jacques Villeneuve na Indy 500 de 1995, que
venceu
No caso de Gilles, a ascenção à F1 foi mais estranha. Ainda a
competir na Formula Atlantic, o contrato de Gilles com a McLaren em
1977 era por apenas cinco corridas. Venceu novamente o
campeonato na Atlantic mas na F1 não correu tão bem. Fez
apenas uma corrida, em Silverstone, onde terminou em 11º. A McLaren
informou-o de seguida que não iria ficar em 1978. Nesta altura
Gilles tinha 27 anos.
O seu filho teve mais sorte à partida na F1. Na sua primeira
corrida com a Williams fez apole positionmas terminou em segundo,
devido a uma fuga de óleo. O primeiro foi Damon Hill, seu
companheiro de equipa, mas não demorou muito para que Villeneuve
vencesse. Foi na quarta corrida, em Nürburgring. Nesse ano terminou
em primeiro em mais três corridas e no final do campeonato a luta
era entre ele e Damon Hill. O britânico venceu mas foi demitido
pela Williams. Villeneuve passou a piloto principal da equipa.
Depois da experiência com a McLaren a porta da Fórmula 1 ainda
não estava fechada para Gilles Villeneuve. Enzo Ferrari tinha
percebido o potencial do piloto e Gilles encontrou-se com o dono da
Ferrari, dando umas voltas em Fiorano pouco depois. Parece que os
testes não correram muito bem ao canadiano, com fracos tempos e
alguns erros, mas mesmo assim Enzo Ferrari quis que Gilles
conduzisse para ele. Aqui começa a lenda de Gilles Villeneuve.
Jacques Villeneuve, aos 26 anos, agora companheiro de
Heinz-Harald Frentzen na sua segunda temporada na F1, era o piloto
principal da Williams em 1997. Desta vez o seu maior adversário não
estava dentro da equipa, corria pela Benetton e chamava-se Michael
Schumacher. Com sete vitórias e dez pole positions, o canadiano
levou a decisão do campeonato para a última prova, em Jerez. Nessa
corrida, colidiu com o alemão e ficou com a lateral danificada.
Ainda assim, recuperou e terminou em terceiro lugar, o que lhe
valeu o campeonato. Schumacher retirou-se e foi desqualificado.

Jacques Villeneuve a festejar a vitória em Silverstone,
1997
Gilles Villeneuve estreou-se pela Ferrari em sua casa, no
Canadá. A oportunidade surgiu depois de Niki Lauda, campeão pela
equipa italiana, ter abandonado a scuderia com duas provas para o
final do campeonato. Numa altura em que a segurança não era ainda o
forte da F1, Gilles teve o seu primeiro acidente na F1, logo na
segunda prova, ao bater no Tyrrell de Ronnie Peterson. O Ferrari
deu umas cambalhotas que resultaram num comissário de pista morto e
vários espectadores feridos. Mas a fama de bom piloto e também de
louco surge principalmente na temporada seguinte. Nesse ano, chegou
pela primeira vez ao pódio em Zandvoort, Holanda, com um terceiro
lugar. Para que se perceba melhor a falta de segurança e enorme
mortalidade entre pilotos, foi na corrida seguinte que Ronnie
Peterson morreu. O campeonato não parou, e na última corrida do
ano, no Canadá, Gilles Villeneuve venceu o seu primeiro GP.

Gilles Villeneuve no GP do Canadá em 1978, a sua
primeira vitória na F1
Enquanto a carreira de Gilles foi melhorando, a de Jacques foi
piorando. No ano seguinte, 1998, teve dificuldades com o Williams
vermelho de motor Mecachrome e não venceu uma única corrida.
Terminou o ano em quinto lugar da geral com dois terceiros lugares
como melhores resultados. No final desse ano trocou a Williams pela
novata BAR (British American Racing). A temporada não foi brilhante
apesar das expetativas, e a equipa terminou o ano sem pontos. Na
verdade o problema estava na fiabilidade do carro, que desistiu nas
primeiras onze corridas do campeonato. Villeneuve manteve-se na BAR
durante mais quatro anos. O melhor resultado foi um quarto lugar em
2002. Depois de sair da BAR em 2004, passou pela Renault, Sauber e
BMW, retirando-se da F1 em 2006 com resultados.
Se 1978 foi bom, o ano de 1979 ainda foi melhor para o
canadiano. Em Zolder, na Bélgica, Gilles passou a corrida a lutar
com Clay Regazzoni e danificou a frente do seu Ferrari, forçando-o
a parar nas boxes. Numa altura em que não havia reabastecimentos,
Gilles ficou em 24º mas recuperou para terceiro, altura em que
ficou sem combustível. Em Dijon nesse ano temos outra história
deste calibre, uma que merece ser vista e pode ser encontrada em
qualquer site de partilhas de vídeos. Gilles Villeneuve partiu em
terceiro e liderou a corrida até ser ultrapassado pelo Renault de
René Arnoux e pelo de Jean-Pierre Jabouille. Na volta 78, o motor
turbo de Arnoux começou a dar problemas, e o Ferrari de motor
naturalmente aspirado apanhou-o. Roda contra roda, um à frente de
outro pelo circuito fora. Venceu Jabouille, seguido de Villeneuve e
Arnoux. No final desse campeonato, Jody Scheckter levou o título
mas Villeneuve ganhou os fãs.

Gilles Villeneuve e René Arnoux em Dijon,
1979
1980 foi o contrário. Um desastre para a Ferrari. Depois do que
tinha mostrado, o canadiano era um dos favoritos para o título mas
terminou em sexto. Era a altura dos turbo que apanhava a Ferrari.
No ano seguinte, já com motor turbo e Didier Pironi no outro
Ferrari, a temporada correu melhor e Villeneuve ganhou duas
corridas. Mas Gilles morreu sem que tenha ganho alguma vez o
campeonato. Foi em Zolder, nos treinos para o Grande Prémio da
Bélgica de 1982, a quinta prova de um ano onde Gilles ainda não
tinha vencido. Tinha 32 anos. Com essa idade o seu filho já tinha
vencido um campeonato de F1 e abandonado a categoria. Aos 32,
Jacques corria na Craftsmann Truck Series, antecâmara da NASCAR,
onde correu depois e até 2011.
Atualmente, o circuito Gilles Villeneuve em Montreal, Canadá,
local onde o canadiano venceu a sua primeira corrida, tem na linha
meta a inscrição 'Salut Gilles'. Em Zolder, onde faleceu, a curva
foi transformada numa chicane que recebeu o seu nome. Em Itália uma
curva do autódromo Enzo e Dino Ferrari tem o seu nome e uma
bandeira canadiana está pintada no terceiro lugar da grelha de
partida. Foi de onde Villeneuve partiu para a sua última
corrida.
