GP Memória – Japão 1991

Por Paulo Teixeira - 1 Comentários

Três semanas depois da Formula 1 ter andado pela primeira vez no circuito de Barcelona, atravessavam meio mundo para ir correr no circuito japonês de Suzuka para ver se o título mundial iria ser decidido por ali, pois a diferença entre o homem da frente, o McLaren de Ayrton Senna, e o seu perseguidor, o Williams do britânico Nigel Mansell, era agora de dezasseis pontos, depois da vitória de Mansell na corrida espanhola.

Nos bastidores da Formula 1, havia mudanças: o presidente da FIA, Jean-Marie Balestre, tinha se candidatado, mais uma vez, ao cargo máximo da FISA, desta vez com a oposição de Max Mosley, apoiado pelas equipas e por Bernie Ecclestone. Muitos esperavam que Balestre iria ganhar mais uma vez, mas inesperadamente, Mosley sai como vencedor, com 43 votos contra 19 do seu antecessor.

Em Suzuka, os habitantes locais estavam ansiosos para ver o Grande Prémio, devido ao seu carácter decisivo. E essa ansiedade era tal que a organização tinha recebido… quatro milhões de pedidos para bilhetes, para 325 mil lugares disponíveis. A solução teve de passar por um sorteio, onde os sortudos tiveram a oportunidade de assistir ao vivo a corrida.

A pré-qualificação estava agora bem reduzida, com a ausência da francesa AGS, que se tinha ido embora de vez da Formula 1. Mas a Coloni tinha feito o seu regresso, tendo conseguido arranjar um piloto, o local Naoki Hattori. No resto do pelotão, a Lotus voltava a contar com os serviços de Johnny Herbert, enquanto que na Leyton House, que estava cada vez mais apertado de dinheiro, decidiu dispensar os serviços de Ivan Capelli - que estava de saída para a Ferrari - e contratou o jovem austriaco Karl Wendlinger, que era piloto da formação da Mercedes nos Sport-Protótipos. E tal como tinha acontecido com Michael Schumacher, meses antes, a marca alemã pagou para que o austriaco pudesse ter a sua estreia na Formula 1.

Depois de na pré-qualificação, o Brabham de Mark Blundell lhe ter "saído a fava" ao não conseguir a passagem para a fase seguinte, na qualificação, as coisas andaram acidentadas, com o francês Eric Bernard a ser o mais afetado, quando um acidente na sexta-feira ter causado ferimentos num dos seus tornozelos, devido a um braço da suspensão ter atravessado pelo chassis, impedindo-o de participar na corrida.

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No final desses dois dias de treinos, o melhor tinha sido Gerhard Berger, que fazia a sua segunda pole-position consecutiva, com o seu companheiro Ayrton Senna a seu lado. Nigel Mansell, no seu Williams-Renault e maior rival de Senna nessa temporada, era o terceiro na grelha, com o Ferrari de Alain Prost a seu lado. O mais impressionante disso é que a diferença entre Mansell e Prost em termos de tempos tinha sido superior… a um segundo. Riccardo Patrese, no seu segundo Williams-Renault, era o quinto, seguido pelo segundo Ferrari de Jean Alesi. A quarta fila era um monopólio da Minardi, com Pierluigi Martini a bater Gianni Morbidelli, enquanto que na quinta, a fechar o "top ten", era também outro monopólio, mas da Benetton, com Michael Schumacher a ser melhor do que Nelson Piquet.

Dos trinta pilotos que participaram nos treinos, quatro deles tinham de ficar de fora, e os infelizes contemplados foram, para além do lesionado Bernard, os Lamborghini de Nicola Larini e de Eric Van de Poele, e o Footwork-Arrows de Michele Alboreto.

Estava um sol ameno de outono em Suzuka, no dia da corrida. Antes da largada, Piquet tem problemas e é obrigado a largar do último lugar. Quando foi dada a luz verde, Berger foi-se embora, enquanto que Senna segurava Mansell e Patrese, que conseguira passar Prost. Ao mesmo tempo que isso acontecia, o outro Ferrari de Jean Alesi desistia, vítima de do seu motor rebentado. Na volta seguinte, o Jordan de Andrea de Cesaris despista-se e causa uma carambola, levando consigo os Dallara de Emmanuelle Pirro e de J.J. Letho, bem como o carro do estreante Wendlinger.

Contudo, a corrida continuou e Mansell estava a pressionar Senna para que este cometesse um erro e o pudesse passar, para ver se tinha alguma chance de alcançar o título. Mas à entrada da volta nove, Mansell pisa a parte suja da pista e escorrega para a gravilha. A corrida do "brutânico" acabava ali, e nem precisava Senna terminar para comemorar o tricampeonato, pois este já era seu.

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A partir dali, Senna foi buscar Berger, que afinal de contas, tinha decidido elevar o seu ritmo inicial, como se fosse uma "lebre". Resultado disso, tinha os pneus degradados na volta 18, quando foi passado por Senna no comando da corrida. A partir dali, a história do Grande Prémio estava mais do que contada. Senna e Berger começaram a ter um duelo pessoal, sem forçar muito os seus carros enquanto que lá atrás, Riccardo Patrese era um cinzento terceiro, incapaz de apanhar os McLaren.

A última volta foi algo controversa: Ron Dennis queria uma chegada em parada, com os dois carros a rolarem lado a lado, para comemorar aquele título, mas queria que fosse Berger o vencedor, como forma de recompensa por tudo o que tinha feito naquela temporada. Relutantemente, Senna aceitou e Berger lá foi o vencedor, mas o embaraço entre os dois homens era evidente, pois o austriaco não queria vencer daquela forma. Riccardo Patrese foi o terceiro, enquanto que Alain Prost era um distante quarto com o seu Ferrari. A fechar os lugares pontuáveis ficaram o Brabham de Martin Brundle - iriam ser os últimos pontos da história da equipa - e o Tyrrell de Stefano Modena.

Depois da cerimónia do pódio, Senna foi à sala de imprensa para falar o que ia na sua alma sobre os incidentes de 1989 e 1990:

Em 88 tive o meu melhor ano. No ano seguinte tive de lutar contra Prost na mesma equipe e também contra Balestre e a FISA. Aqui no Japão aconteceu o que todos conhecem: ataquei Prost na chicane, voltei à pista e ganhei. Mas, Balestre não quis e julgou contra mim. 

Depois, na época passada, pedi aos comissários para mudarem o lugar do pole, ao que eles acederam. Apareceu Balestre e mudaram tudo de volta. 'Aqui quem manda sou eu', foi a resposta dele. Foi só para me prejudicar. Aí pensei que não podia ser f***** por pessoas estúpidas. Decidi que Prost não poderia de alguma forma sair Curva 1 na frente, para mim só haveria uma trajetória. Era melhor ele não tentar nada. Foi o que se viu. E, eu não queria que fosse assim.

Ele de fato largou melhor, passou à minha frente, fechou a porta e não me desviei um centímetro. Ao me sinto culpado. Todo foi um resultado de decisões erradas e parciais por pessoas que deveriam fiscalizar e não tomar partido. Venci o campeonato e isso é que importa. Tanto 89 como 90 foram maus exemplos para o automobilismo. Na altura não me importei com o incidente. A partir do momento que Prost tentou ser primeiro, dispus-me a não o deixar passar. Tudo foi resultado do ano anterior. O importante é falarmos o que vai dentro de nós.

Vivemos num mundo moderno e essas regras que proíbem os pilotos de falar verdades são uma m****. Nunca pedi desculpas a Balestre. Foi tudo mentira. Forçado pelo Ron e pela Honda, apenas assinei um acordo com alguns parâmetros, que lhe foi enviado por fax e ele mudou para divulgar.

Com a questão do título já resolvida, e com Senna a desabafar o que vinha na sua alma, a caravana rumava agora para a Austrália para cumprir calendário e fechar a temporada.

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Sobre o Autor

É o "alter ego" de Paulo Alexandre Teixeira, um português que nasceu no Brasil a 12 de Julho de 1976. É jornalista de profissão, formação e convicção, com tendência para escrever compulsivamente quando o assunto é automobilismo. É solteiro, gosta do Benfica (ninguém é perfeito...), e vê Formula 1 desde 1982.

1 Comentário on "GP Memória – Japão 1991"

  1. Paulo Scapulatempo sábado, 22 de outubro de 2011 15:11:53

    Fantásticas matérias sobre a história da F1 no novo portal ... 91 foi o grande ano de Senna, mas também ficou marcado pela vitória de Piquet no grande prêmio da Canadá. Com uma Bennetton que literalmente estava sendo construída com a experiência de Nelson, foi a única ocasião desta temporada em que não houve uma vitória da Willians ou McLaren. Lembrando ainda que me 1990, Piquet havia sido terceiro no campeonato, superando as poderosas Ferrari de Mansell, McLarens e Willians. Em meu pensamento foi Nelson que abriu caminho para Schumacher conseguir já em 92 o terceiro lugar da temporada e seu primeiro campeonato mundial em 94. Uma curiosidade para os que não leram a biografia de Piquet foi de que apesar de vir de família nobre de Brasília, chegou a trabalhar como mecânico e morar na própria oficina pois seu pai não aceitava sua carreira de piloto (queria que fosse jogador de tênis). Talvez isto explique porque foi o maior preparador de carros da F1, reconhecido pela própria mídia especializada. Bons tempos aqueles!

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