Três semanas depois da Formula 1 ter andado pela primeira vez no
circuito de Barcelona, atravessavam meio mundo para ir correr no
circuito japonês de Suzuka para ver se o título mundial iria ser
decidido por ali, pois a diferença entre o homem da frente, o
McLaren de Ayrton Senna, e o seu perseguidor,
o Williams do britânico Nigel Mansell, era
agora de dezasseis pontos, depois da vitória de Mansell na corrida
espanhola.
Nos bastidores da Formula 1, havia mudanças: o presidente da
FIA, Jean-Marie Balestre, tinha se candidatado, mais uma vez, ao
cargo máximo da FISA, desta vez com a oposição de Max Mosley,
apoiado pelas equipas e por Bernie Ecclestone. Muitos esperavam que
Balestre iria ganhar mais uma vez, mas inesperadamente, Mosley sai
como vencedor, com 43 votos contra 19 do seu antecessor.
Em Suzuka, os habitantes locais estavam ansiosos para ver o
Grande Prémio, devido ao seu carácter decisivo. E essa ansiedade
era tal que a organização tinha recebido… quatro milhões de pedidos
para bilhetes, para 325 mil lugares disponíveis. A solução teve de
passar por um sorteio, onde os sortudos tiveram a oportunidade de
assistir ao vivo a corrida.
A pré-qualificação estava agora bem reduzida, com a ausência da
francesa AGS, que se tinha ido embora de vez da Formula 1. Mas a
Coloni tinha feito o seu regresso, tendo conseguido arranjar um
piloto, o local Naoki Hattori. No resto do
pelotão, a Lotus voltava a contar com os serviços
de Johnny Herbert, enquanto que na Leyton
House, que estava cada vez mais apertado de dinheiro, decidiu
dispensar os serviços de Ivan Capelli -
que estava de saída para a Ferrari - e contratou o jovem
austriaco Karl Wendlinger, que era piloto da
formação da Mercedes nos Sport-Protótipos. E tal como tinha
acontecido com Michael Schumacher, meses
antes, a marca alemã pagou para que o austriaco pudesse ter a sua
estreia na Formula 1.
Depois de na pré-qualificação, o Brabham de Mark
Blundell lhe ter "saído a fava" ao não conseguir a
passagem para a fase seguinte, na qualificação, as coisas andaram
acidentadas, com o francês Eric
Bernard a ser o mais afetado, quando um acidente na
sexta-feira ter causado ferimentos num dos seus tornozelos, devido
a um braço da suspensão ter atravessado pelo chassis, impedindo-o
de participar na corrida.

No final desses dois dias de treinos, o melhor tinha
sido Gerhard Berger, que fazia a sua segunda
pole-position consecutiva, com o seu companheiro Ayrton Senna a seu
lado. Nigel Mansell, no seu Williams-Renault e maior rival de Senna
nessa temporada, era o terceiro na grelha, com o Ferrari de Alain
Prost a seu lado. O mais impressionante disso é que a diferença
entre Mansell e Prost em termos de tempos tinha sido superior… a um
segundo. Riccardo Patrese, no seu segundo
Williams-Renault, era o quinto, seguido pelo segundo Ferrari
de Jean Alesi. A quarta fila era um monopólio
da Minardi, com Pierluigi Martini a
bater Gianni Morbidelli, enquanto que na
quinta, a fechar o "top ten", era também outro monopólio, mas da
Benetton, com Michael Schumacher a ser melhor do
que Nelson Piquet.
Dos trinta pilotos que participaram nos treinos, quatro deles
tinham de ficar de fora, e os infelizes contemplados foram, para
além do lesionado Bernard, os Lamborghini de Nicola
Larini e de Eric Van de Poele,
e o Footwork-Arrows de Michele Alboreto.
Estava um sol ameno de outono em Suzuka, no dia da corrida.
Antes da largada, Piquet tem problemas e é obrigado a largar do
último lugar. Quando foi dada a luz verde, Berger foi-se embora,
enquanto que Senna segurava Mansell e Patrese, que conseguira
passar Prost. Ao mesmo tempo que isso acontecia, o outro Ferrari de
Jean Alesi desistia, vítima de do seu motor rebentado. Na volta
seguinte, o Jordan de Andrea de
Cesaris despista-se e causa uma carambola, levando
consigo os Dallara de Emmanuelle Pirro e
de J.J. Letho, bem como o carro do estreante
Wendlinger.
Contudo, a corrida continuou e Mansell estava a pressionar Senna
para que este cometesse um erro e o pudesse passar, para ver se
tinha alguma chance de alcançar o título. Mas à entrada da volta
nove, Mansell pisa a parte suja da pista e escorrega para a
gravilha. A corrida do "brutânico" acabava ali, e nem precisava
Senna terminar para comemorar o tricampeonato, pois este já era
seu.

A partir dali, Senna foi buscar Berger, que afinal de contas,
tinha decidido elevar o seu ritmo inicial, como se fosse uma
"lebre". Resultado disso, tinha os pneus degradados na volta 18,
quando foi passado por Senna no comando da corrida. A partir dali,
a história do Grande Prémio estava mais do que contada. Senna e
Berger começaram a ter um duelo pessoal, sem forçar muito os seus
carros enquanto que lá atrás, Riccardo Patrese era um cinzento
terceiro, incapaz de apanhar os McLaren.
A última volta foi algo controversa: Ron Dennis queria uma
chegada em parada, com os dois carros a rolarem lado a lado, para
comemorar aquele título, mas queria que fosse Berger o vencedor,
como forma de recompensa por tudo o que tinha feito naquela
temporada. Relutantemente, Senna aceitou e Berger lá foi o
vencedor, mas o embaraço entre os dois homens era evidente, pois o
austriaco não queria vencer daquela forma. Riccardo Patrese foi o
terceiro, enquanto que Alain Prost era um distante quarto com o seu
Ferrari. A fechar os lugares pontuáveis ficaram o Brabham
de Martin Brundle - iriam ser os últimos
pontos da história da equipa - e o Tyrrell de Stefano
Modena.
Depois da cerimónia do pódio, Senna foi à sala de imprensa para
falar o que ia na sua alma sobre os incidentes de 1989 e 1990:
Em 88 tive o meu melhor ano. No ano seguinte tive de lutar
contra Prost na mesma equipe e também contra Balestre e a FISA.
Aqui no Japão aconteceu o que todos conhecem: ataquei Prost na
chicane, voltei à pista e ganhei. Mas, Balestre não quis e julgou
contra mim.
Depois, na época passada, pedi aos comissários para mudarem o
lugar do pole, ao que eles acederam. Apareceu Balestre e mudaram
tudo de volta. 'Aqui quem manda sou eu', foi a resposta dele. Foi
só para me prejudicar. Aí pensei que não podia ser f***** por
pessoas estúpidas. Decidi que Prost não poderia de alguma forma
sair Curva 1 na frente, para mim só haveria uma trajetória. Era
melhor ele não tentar nada. Foi o que se viu. E, eu não queria que
fosse assim.
Ele de fato largou melhor, passou à minha frente, fechou a porta
e não me desviei um centímetro. Ao me sinto culpado. Todo foi um
resultado de decisões erradas e parciais por pessoas que deveriam
fiscalizar e não tomar partido. Venci o campeonato e isso é que
importa. Tanto 89 como 90 foram maus exemplos para o automobilismo.
Na altura não me importei com o incidente. A partir do momento que
Prost tentou ser primeiro, dispus-me a não o deixar passar. Tudo
foi resultado do ano anterior. O importante é falarmos o que vai
dentro de nós.
Vivemos num mundo moderno e essas regras que proíbem os pilotos
de falar verdades são uma m****. Nunca pedi desculpas a Balestre.
Foi tudo mentira. Forçado pelo Ron e pela Honda, apenas assinei um
acordo com alguns parâmetros, que lhe foi enviado por fax e ele
mudou para divulgar.
Com a questão do título já resolvida, e com Senna a desabafar o
que vinha na sua alma, a caravana rumava agora para a Austrália
para cumprir calendário e fechar a temporada.