Nas ocasiões em que o título mundial foi decidido na última
prova do campeonato, poucos foram os anos em que houve mais do que
dois candidatos ao ceptro máximo. Os anos de 1964 e 1974 tinham
sido até então os únicos anos em que houve mais do que dois pilotos
com possibilidade real de ganharem o título. Em 1986, repetia-se
cenário pela terceira vez na história da Formula 1, só que desta
vez, desses três candidatos, dois vinham da mesma equipa, a
Williams: Nigel Mansell e Nelson Piquet. E os dois corriam contra o
McLaren de Alain Prost.
À chegada a Adelaide, palco do último Grande Prémio da
temporada, Nigel Mansell estava confortavelmente na liderança, com
seis pontos de vantagem sobre Alain Prost. Um ponto mais atrás, mas
ainda com possibilidades matemáticas de alcançar o título estava o
brasileiro Nelson Piquet, enquanto que no quarto lugar já sem
possibilidades de chegar ao título estava o jovem brasileiro Ayrton
Senna, no seu Lotus-Renault V6 Turbo.

A corrida de Adelaide, independentemente do resultado que
qualquer um iria ter, iriam ser também as derradeiras corridas para
o finlandês Keke Rosberg, que aos 37 anos decidiu abandonar a
competição, para o australiano Alan Jones, que aos 40 anos
aproveitava o final de atividades da Lola-Haas para ir embora,
enquanto que o seu companheiro de equipa, o francês Patrick Tambay,
também parecia ver os seus dias na Formula 1 contados. E Adelaide
também seria o palco final para os motores Renault Turbo que, após
nove anos de bons serviços, iriam abandonar a competição para se
prepararem para a nova Formula de 3.5 litros.
As hipóteses de título para os três candidatos eram as
seguintes: Mansell seria campeão se vencesse, ou em caso de não
acontecer, ser segundo ou terceiro. No caso de Alain Prost, o
piloto da McLaren só seria campeão se vencesse e Mansell fosse
quarto classificado, no mínimo. Ou então desistisse. E era o mesmo
tipo de hipóteses que tinha Piquet para a corrida. Para o
"brutânico", só um azar é que perderia o campeonato.

Na qualificação, Mansell fez a "pole-position", seguido do seu
companheiro de equipa Piquet. Na segunda fila estavam o
Lotus-Renault de Senna, seguido do McLaren-TAG Porsche de Prost. Na
terceira fila estava o Ligier de René Arnoux e o Benetton de
Gerhard Berger, que tinha vencido na corrida anterior, no México,
enquanto que na quarta estavam o segundo McLaren de Keke Rosberg e
o segundo Ligier de Philippe Alliot. A fechar o "top ten" estavam o
Ferrari de Michele Alboreto e o Tyrrell de Philippe
Streiff.
A 26 de Outubro, dia da corrida, 150 mil espectadores tinham-se
deslocado ao circuito para assistir à decisão do título mundial de
1986, numa corrida que iria durar 82 voltas. No momento da partida,
Mansell larga bem mas algumas curvas depois é surpreendido por
Senna, Piquet, Prost e Rosberg. Atrás, o Ligier de Arnoux falha uma
passagem de caixa e arrasta-se no pelotão, não evitando que o
Ferrari de Alboreto batesse nele, danificando a sua suspensão. No
final dessa volta, Piquet tinha conseguido ultrapassar Senna e
estava na liderança da corrida, com Rosberg em terceiro, Mansell em
quarto e Prost em quinto. Na segunda volta, Rosberg passa Senna e
na volta seis é a vez de passar Piquet para ficar com a liderança
da corrida. E nas voltas seguintes, o finlandês iria alargar essa
liderança, querendo despedir-se da Formula 1 em estilo.
As coisas modificiariam-se na volta 23, quando Piquet se
despista, perdendo algumas posições, enquanto que ao mesmo tempo,
Prost sofria um furo, que o faria ir às boxes e descer para a
quarta posição, enquanto que Mansell chegava ao segundo posto, o
que faria com que o britânico garantisse o título mundial naquele
momento. Atrás, Senna era quinto e o Ferrari do sueco Stefan
Johansson na sexta posição. O brasileiro da Lotus iria abandonar à
volta 43, e na volta seguinte, por causa dos pneus novos, Prost
passa Piquet para o terceiro lugar. Pouco depois, o brasileiro
passava Mansell, com Prost a aproximar-se rapidamente do
britânico.
Mas as posições inalteradas até à volta 62 quando tudo muda. Na
volta 63, confortavelmente instalado na sua liderança, o pneu
traseiro direito de Rosberg rebenta, fazendo com que abandone na
sua última corrida da carreira. Piquet herda a liderança, enquanto
que Prost passa Mansell para o segundo posto, mas o britânico nem
reage, pois sabia que só precisaria de ser terceiro para se sagrar
campeão do mundo. Mas este estatuto não dura nem uma volta, pois em
plena Recta Brabham, o seu pneu traseiro esquerdo explode a alta
velocidade, fazendo com que abandone a corrida. O seu sonho de ser
Campeão do Mundo tinha-se esfumado e agora, só se Prost e Piquet
abandonassem é que poderia ser o campeão.
Piquet, na liderança, era nessa altura o
virtual Campeão do Mundo, com dois pontos de diferença sobre Prost.
Mas a Williams, temendo que pudesse acontecer o mesmo a Piquet,
chamou-o às boxes para que trocasse de pneus, algo que o fez de
imediato. Prost passou à frente e Piquet partiu de imediato para o
apanhar, mas já era tarde demais.
Quando cortou a meta, Prost ficara quatro segundos à frente de
Piquet, os suficientes para ser Campeão do Mundo pela segunda vez
consecutiva. A acompanhá-los no pódio estaria o Ferrari do sueco
Stefan Johansson, enquanto que nos restantes lugares pontuáveis
ficaram os Tyrrell de Martin Brundle e Philippe Streiff - que
perdera um pódio na última volta devido à falta de gasolina a
poucos metros do fim - e o Lotus-Renault de Johnny Dumfries, que
depois de verificou que tinha feito a sua ultima corrida da sua
carreira na Formula 1.