Uma temporada cheia de incidentes e acidentes estava a chegar ao
fim, numa paragem absolutamente nova para a Formula 1: o Japão. Era
a primeira vez na sua história que a caravana do automobilismo iria
correr na Ásia, num circuito que tinha tanto de rápido como de
desafiador: Mont Fuji, não muito longe de Tóquio e com o vulcão à
vista de todos.
James Hunt e Niki Lauda estavam a lutar pelo título e
encontravam-se separados por apenas três pontos entre eles. Se
alguém tivesse perdido o fio à meada deste campeonato a meio do
ano, ficaria espantado por saber como é que Lauda, no seu Ferrari,
perdera toda a vantagem que tinha então, que quase todos
perguntariam quando em vez de se iria renovar o título. O piloto
austríaco, apesar de recuperado do seu acidente no Nurburgring,
tinha de se defender de um Hunt que vinha no seu melhor estado de
forma, vencendo três das últimas quatro corridas do campeonato e
querendo alcançar o título, desse onde desse.
E para isso, Hunt tinha de vencer, porque caso não conseguisse,
teria de esperar que Lauda desistisse ou acabasse no quarto posto,
na pior das hipóteses. Já o austríaco tinha apenas de vencer ou
acabar no pódio para alcançar o bicampeonato. E mesmo que acabasse
fora do pódio, bastava que Hunt não vencesse.
O pelotão da Formula 1 iria receber nesta última prova do
campeonato uma série de pilotos locais, e um chassis novo. A
Surtees cedia um carro oficial para Noritake Takahara, que
substituía Brett Lunger, enquanto que a Wolf-Williams iria em
principio alinhar com outro local, Masami Kuwashima. Contudo, o
dinheiro para pagar o seu lugar não apareceu, e Hans Binder
apareceu no seu lugar. A Maki, que tinha aparecido no ano anterior,
foi ressuscitada e voltaria a alinhar com Tony Trimmer. Em Fuji, um
Tyrrell 007 alinharia nessa corrida, inscrita pela Heros Racing e
pilotada por outro piloto local, Kazuyoshi Hoshino. E para
finalizar, um chassis totalmente novo, de outra equipa local, a
Kojima Racing, que alinharia com pneus Dunlop e Masahiro Hasemi ao
volante.
A qualificação decorreu sem problemas, com Mário Andretti na
"pole-position", demonstrando que a Lotus estava cada vez a
melhorar no pelotão. Ao seu lado estava James Hunt, no seu McLaren,
que conseguira bater Niki Lauda, que tinha sido o terceiro
classificado na grelha. Atrás dele, no quarto lugar, estava o
Penske de John Watson. Na terceira fila estavam o Tyrrell de Jody
Scheckter e o Brabham-Alfa Romeo de José Carlos Pace, enquanto que
na quarta estava o segundo Tyrrell de Clay Regazzoni e o March de
Vittorio Brambilla. A fechar o "top ten" estavam o segundo march de
ronnie Peterson e o surpreendente - ou talvez não - Kojima de
Masahiro Hasemi.
Se a qualificação correu sem chuva, o dia da corrida amanheceu
com frio, chuva e nevoeiro. O Outono nipónico já tinha chegado em
força e os pilotos estavam receosos com o temporal que se fazia
naquela altura. Assim sendo, começaram a movimentar-se para que os
organizadores adiassem ou cancelassem a corrida. Os debates foram
imensos e intensos, e a corrida foi adiada por mais de 45 minutos,
para ver se a chuva amainava e o nevoeiro se levantava. Mas pouco
depois, os organizadores decidiram que a corrida iria arrancar,
deixando alguns pilotos insatisfeitos com a decisão. E isso iria
ter consequências no Mundial de pilotos.
Quando a partida foi dada, Hunt foi para a frente, determinado a
resolver a questão do título. Watson e Andretti seguiam-lo, e Lauda
atrasava-se, rodando devagar. Na segunda volta, ao mesmo tempo que
Watson se despistava devido à imensa água que estava no circuito,
Lauda parou nas boxes e saiu simplesmente do carro. Num gesto sem
precedentes, tinha abdicado de lutar pelo título. Nas voltas
seguintes, mais alguns pilotos decidiriam fazer o mesmo gesto: os
brabham de Larry Perkins e Carlos Pace, o Copersucar de Emerson
Fittipaldi, que assim protestavam acerca das más condições da
pista.
Na frente, sem que os pilotos soubessem dos eventos nas boxes,
Hunt continuava na frente, com Andretti no segundo lugar e a ser
desafiado pelo March de Brambilla. O italiano conseguiu passar o
piloto da Lotus e até à volta 22, Brambilla tentou apanhar Hunt e o
desfiar na liderança, mas quando tentou, perdeu o controlo do seu
carro e caiu na classificação. Com isso, Jochen Mass subiu ao
segundo posto e a McLaren estava a fazer a dobradinha até à volta
36, quando o carro de Mass perde o controlo e bate forte. Com isso,
Depailler herdava o segundo posto, com Andretti no terceiro
lugar.
À medida que as voltas passavam, a chuva parara e a pista
começava a secar. Mas quando as equipas viram que os seus pilotos
teriam de mudar de pneus antes da corrida acabar, prepararam-se
para a troca. Mas Hunt e a McLaren apostaram que iria ficar com o
mesmo jogo de pneus, o que fazia com que perdesse segundos com os
seus adversários. Na volta 62, Hunt era superado por Andretti e
depois por Depailler, mas Hunt sabia que bastava apenas o quarto
posto para ser campeão. Duas voltas depois, Depailler teve um furo
e foi às boxes, fazendo com que Huntr subisse para o segundo posto.
Mas logo depois, teve um furo e parou nas boxes, caindo para o
quinto lugar, insuficiente para conseguir o título.
Quando voltou à pista, Hunt acelerou para apanhar os pilotos que
estavam na sua frente nas voltas que faltavam: o Surtees de Alan
Jones e o Ferrari de Clay Regazzoni, para além de Depailler.
Conseguiu apanhar o australiano e depois o suíço da Ferrari, para
chegar ao terceiro lugar, mas Hunt queria apanhar Depailler, porque
pensava que só se o apanhasse é que conseguiria o título.
Desconhecia que já era terceiro, mais do que suficiente para ser
campeão do mundo.
No final, Mário Andretti dava à Lotus a sua primeira vitória do
ano e a primeira desde 1974, com Patrick Depailler no segundo lugar
e James Hunt no terceiro posto. O britânico regressava às boxes
desalentado, julgando que tinha perdido o título, em claro
contraste com os festejos nas boxes por parte da sua equipa. Ficou
espantado quando soube do lugar que tinha alcançado e o que isso
significava. Nos restantes lugares pontuáveis ficaram o Surtees de
Alan Jones, o Ferrari de Clay Regazzoni e o segundo Lotus de Gunnar
Nilsson.
E assim, num final digno de um filme de Hollywood, terminava o
campeonato do mundo de 1976.