GP Memória – Japão 1976

Por Paulo Teixeira - Nenhum comentário

Uma temporada cheia de incidentes e acidentes estava a chegar ao fim, numa paragem absolutamente nova para a Formula 1: o Japão. Era a primeira vez na sua história que a caravana do automobilismo iria correr na Ásia, num circuito que tinha tanto de rápido como de desafiador: Mont Fuji, não muito longe de Tóquio e com o vulcão à vista de todos.

James Hunt e Niki Lauda estavam a lutar pelo título e encontravam-se separados por apenas três pontos entre eles. Se alguém tivesse perdido o fio à meada deste campeonato a meio do ano, ficaria espantado por saber como é que Lauda, no seu Ferrari, perdera toda a vantagem que tinha então, que quase todos perguntariam quando em vez de se iria renovar o título. O piloto austríaco, apesar de recuperado do seu acidente no Nurburgring, tinha de se defender de um Hunt que vinha no seu melhor estado de forma, vencendo três das últimas quatro corridas do campeonato e querendo alcançar o título, desse onde desse.

E para isso, Hunt tinha de vencer, porque caso não conseguisse, teria de esperar que Lauda desistisse ou acabasse no quarto posto, na pior das hipóteses. Já o austríaco tinha apenas de vencer ou acabar no pódio para alcançar o bicampeonato. E mesmo que acabasse fora do pódio, bastava que Hunt não vencesse.

O pelotão da Formula 1 iria receber nesta última prova do campeonato uma série de pilotos locais, e um chassis novo. A Surtees cedia um carro oficial para Noritake Takahara, que substituía Brett Lunger, enquanto que a Wolf-Williams iria em principio alinhar com outro local, Masami Kuwashima. Contudo, o dinheiro para pagar o seu lugar não apareceu, e Hans Binder apareceu no seu lugar. A Maki, que tinha aparecido no ano anterior, foi ressuscitada e voltaria a alinhar com Tony Trimmer. Em Fuji, um Tyrrell 007 alinharia nessa corrida, inscrita pela Heros Racing e pilotada por outro piloto local, Kazuyoshi Hoshino. E para finalizar, um chassis totalmente novo, de outra equipa local, a Kojima Racing, que alinharia com pneus Dunlop e Masahiro Hasemi ao volante.

A qualificação decorreu sem problemas, com Mário Andretti na "pole-position", demonstrando que a Lotus estava cada vez a melhorar no pelotão. Ao seu lado estava James Hunt, no seu McLaren, que conseguira bater Niki Lauda, que tinha sido o terceiro classificado na grelha. Atrás dele, no quarto lugar, estava o Penske de John Watson. Na terceira fila estavam o Tyrrell de Jody Scheckter e o Brabham-Alfa Romeo de José Carlos Pace, enquanto que na quarta estava o segundo Tyrrell de Clay Regazzoni e o March de Vittorio Brambilla. A fechar o "top ten" estavam o segundo march de ronnie Peterson e o surpreendente - ou talvez não - Kojima de Masahiro Hasemi.

Se a qualificação correu sem chuva, o dia da corrida amanheceu com frio, chuva e nevoeiro. O Outono nipónico já tinha chegado em força e os pilotos estavam receosos com o temporal que se fazia naquela altura. Assim sendo, começaram a movimentar-se para que os organizadores adiassem ou cancelassem a corrida. Os debates foram imensos e intensos, e a corrida foi adiada por mais de 45 minutos, para ver se a chuva amainava e o nevoeiro se levantava. Mas pouco depois, os organizadores decidiram que a corrida iria arrancar, deixando alguns pilotos insatisfeitos com a decisão. E isso iria ter consequências no Mundial de pilotos.

Quando a partida foi dada, Hunt foi para a frente, determinado a resolver a questão do título. Watson e Andretti seguiam-lo, e Lauda atrasava-se, rodando devagar. Na segunda volta, ao mesmo tempo que Watson se despistava devido à imensa água que estava no circuito, Lauda parou nas boxes e saiu simplesmente do carro. Num gesto sem precedentes, tinha abdicado de lutar pelo título. Nas voltas seguintes, mais alguns pilotos decidiriam fazer o mesmo gesto: os brabham de Larry Perkins e Carlos Pace, o Copersucar de Emerson Fittipaldi, que assim protestavam acerca das más condições da pista.

Na frente, sem que os pilotos soubessem dos eventos nas boxes, Hunt continuava na frente, com Andretti no segundo lugar e a ser desafiado pelo March de Brambilla. O italiano conseguiu passar o piloto da Lotus e até à volta 22, Brambilla tentou apanhar Hunt e o desfiar na liderança, mas quando tentou, perdeu o controlo do seu carro e caiu na classificação. Com isso, Jochen Mass subiu ao segundo posto e a McLaren estava a fazer a dobradinha até à volta 36, quando o carro de Mass perde o controlo e bate forte. Com isso, Depailler herdava o segundo posto, com Andretti no terceiro lugar.

À medida que as voltas passavam, a chuva parara e a pista começava a secar. Mas quando as equipas viram que os seus pilotos teriam de mudar de pneus antes da corrida acabar, prepararam-se para a troca. Mas Hunt e a McLaren apostaram que iria ficar com o mesmo jogo de pneus, o que fazia com que perdesse segundos com os seus adversários. Na volta 62, Hunt era superado por Andretti e depois por Depailler, mas Hunt sabia que bastava apenas o quarto posto para ser campeão. Duas voltas depois, Depailler teve um furo e foi às boxes, fazendo com que Huntr subisse para o segundo posto. Mas logo depois, teve um furo e parou nas boxes, caindo para o quinto lugar, insuficiente para conseguir o título.

Quando voltou à pista, Hunt acelerou para apanhar os pilotos que estavam na sua frente nas voltas que faltavam: o Surtees de Alan Jones e o Ferrari de Clay Regazzoni, para além de Depailler. Conseguiu apanhar o australiano e depois o suíço da Ferrari, para chegar ao terceiro lugar, mas Hunt queria apanhar Depailler, porque pensava que só se o apanhasse é que conseguiria o título. Desconhecia que já era terceiro, mais do que suficiente para ser campeão do mundo.

No final, Mário Andretti dava à Lotus a sua primeira vitória do ano e a primeira desde 1974, com Patrick Depailler no segundo lugar e James Hunt no terceiro posto. O britânico regressava às boxes desalentado, julgando que tinha perdido o título, em claro contraste com os festejos nas boxes por parte da sua equipa. Ficou espantado quando soube do lugar que tinha alcançado e o que isso significava. Nos restantes lugares pontuáveis ficaram o Surtees de Alan Jones, o Ferrari de Clay Regazzoni e o segundo Lotus de Gunnar Nilsson.

E assim, num final digno de um filme de Hollywood, terminava o campeonato do mundo de 1976.

Compartilhar

Sobre o Autor

É o "alter ego" de Paulo Alexandre Teixeira, um português que nasceu no Brasil a 12 de Julho de 1976. É jornalista de profissão, formação e convicção, com tendência para escrever compulsivamente quando o assunto é automobilismo. É solteiro, gosta do Benfica (ninguém é perfeito...), e vê Formula 1 desde 1982.

Nenhum comentário em "GP Memória – Japão 1976"

Fazer Comentarios

Você deve fornecer seu nome e e-mail, ou login