Na véspera de Natal de 1981, Niki Lauda recebe uma carta na sua
casa de Viena. Vinha da parte da FISA, que no final desse ano tinha
decidido que os pilotos iriam ter uma Super-Licença para guiar um
carro de Formula 1, que seria a partir dali condição "sine qua non"
para que pudesse guiar um carro tão potente e complicado. Contudo,
ao ler as clausulas mais atentamente, o piloto austríaco, que iria
regressar à categoria máxima do automobilismo, a convite de Ron
Dennis, agora o patrão da McLaren, descobriu que a carta tinha as
seguintes alíneas:
3 - A Super-Licença será atribuída quando um piloto estiver
comprometido com uma equipa em particular e esta assinar a
Super-Licença emitida pela FISA.
4 - A licença seria emitida ao piloto do qual estaria
comprometido para guiar durante a temporada em curso.
Niki Lauda entendeu isto como uma espécie de "segunda
propriedade" por parte das equipas aos pilotos que o guiavam. Já
não lhe bastava os pilotos estarem comprometidos a uma determinada
equipa, isto poderia significar - embora o regulamento não o
especificasse - que caso a equipa despedisse algum piloto, este não
poderia guiar para uma outra equipa, pois era ela que tinha a
Super-Licença, e tinha a proteção da FISA, que nessa altura era
liderada por Jean-Marie Baleste, que dizia o que o piloto podia ou
não fazer. Para além disso, a sua permanência mínima teria de ser
de três temporadas e os pormenores financeiros teriam de ser
revelados a público. E claro, abstinham-se de criticar a FISA.
Lauda falou imediatamente com o então presidente da Grand Prix
Drivers Association, o francês Didier Pironi, e perguntou sobre este
assunto. Ele disse que o assunto tinha sido conversado com a FISA e
tinha acordado com ela, mas cedo ele mesmo consciencializou-se que
aquilo que tinham acordado não era nada mais, nada menos, do que a
cedência dos direitos dos pilotos às equipas. Em suma, eles tinham
se tornado em mercadoria.
Com a temporada a começar cedo no campeonato - seria o último
ano em que esta começaria no mês de Janeiro - máquinas e pilotos
rumaram a Kyalami, mais a FISA e a FOCA, de Bernie Ecclestone, com
o intuito de resolver a situação criada. Contudo, na quarta-feira
antes da corrida, ambas as partes tinham chegado a um impasse, sem
que ambas as partes cedessem no que quer que seja.
As coisas precipitaram-se, contudo, na quinta-feira de amanhã,
quando um autocarro creme apareceu no paddock de Kyalami e os
pilotos eram levados, um por um, para dentro desse autocarro.
Dentro dele estavam Niki Lauda e Didier Pironi, que tinham decidido
convocar uma reunião de emergência da GPDA, que iria acontecer no
hotel onde estavam hospedados, o Sunnyside Park Hotel. Os pilotos
mais novos estavam relutantes em ir, mas foram persuadidos pelos
mais velhos a aderirem. Somente dois pilotos não vão: os veteranos
Jacky Ickx e o Jochen Mass, mas este não tinha sido avisado do que
ia acontecer.
Na pista ficava Didier Pironi, que discutia com
Jean-Marie Balestre e Bernie Ecclestone a cedência de ambas as
partes neste caso. Estranhamente, neste campo estavam do mesmo
lado, dadas as constantes guerras entre ambas as partes nos últimos
três anos, a famosa "Guerra FISA-FOCA". Mas quem não achava piada
nenhuma eram os organizadores do GP sul-africano, que no ano
anterior tinham sido vítimas da política entre FISA e FOCA, e
estavam a ver tudo a repetir-se de novo. Assim, tentaram primeiro
impedir a saída dos pilotos do circuito com uma carrinha Volkswagen
- retirada por Jacques Laffite - e depois ameaçaram
apreender todos os carros para cobrir os prejuízos. FISA e FOCA
decidiram então elevar a fasquia e ameaçar todos os pilotos de um
banimento permanente. Mais tarde nesse dia, os organizadores
anunciaram que a corrida tinha sido adiada por uma semana, tempo
para que - segundo eles - pudessem contratar outros pilotos para
substituir os que boicotavam.
A reação dos pilotos foi algo surpreendente: fizeram finca-pé,
barricando-se no Sunnyside Park Hotel, e decidiram dormir juntos,
para que os diretores de equipa não tentassem ir buscar os seus
pilotos para correrem no dia seguinte, e o boicote perdesse força.
Colocaram um piano nesse enorme quarto, para que Elio de Angelis
pudesse tocar Chopin, e Gilles Villeneuve um "ragtime" de
Scott Joplin, e levaram enormes cobertores, para dormirem todos
juntos, com duplas algo engraçadas: Alain Prost dormiu com Gilles Villeneuve,
Niki Lauda com Riccardo Patrese ou Nelson Piquet com Carlos
Reutemann. Entretanto, na sala de jantar, as mulheres e namoradas
de pilotos atiravam pedaços de pão a Jean Marie Balestre, fazendo
também a sua parte neste protesto.
Durante a noite, haviam pilotos que faziam vigília para evitar
deserções, mas houve uma: Teo Fabi, um recém-chegado à Formula 1, e
que iria correr na Toleman. Lá foi ele para a pista no dia
seguinte, mas os pilotos já tinham perdido respeito pela
personagem. E na sexta-feira - a corrida foi no sábado - à medida
que se aproximavam as horas para a segunda sessão de qualificação,
a FISA e os organizadores cederam, afirmando que o assunto iria
ficar congelado e que os pilotos não sofreriam sanções durante o
final da semana. Os pilotos tinham temporariamente ganho a batalha,
e a corrida prosseguiu como planeado.
No final, Alain
Prost vencera a corrida, com Carlos Reutemann e René Arnoux a
acompanhá-lo no pódio. A FISA decidiu reinstaurar as suspensões,
mas o Tribunal de Apelo reverteu a decisão a favor dos pilotos.
Este episódio pode ter acabado bem, mas mal todos sabiam que
este seria o primeiro de muitos episódios de um ano atribulado na
Formula 1…