Kyalami 1982: quando os pilotos decidiram boicotar uma corrida

Por Paulo Teixeira - Nenhum comentário

Na véspera de Natal de 1981, Niki Lauda recebe uma carta na sua casa de Viena. Vinha da parte da FISA, que no final desse ano tinha decidido que os pilotos iriam ter uma Super-Licença para guiar um carro de Formula 1, que seria a partir dali condição "sine qua non" para que pudesse guiar um carro tão potente e complicado. Contudo, ao ler as clausulas mais atentamente, o piloto austríaco, que iria regressar à categoria máxima do automobilismo, a convite de Ron Dennis, agora o patrão da McLaren, descobriu que a carta tinha as seguintes alíneas:

3 - A Super-Licença será atribuída quando um piloto estiver comprometido com uma equipa em particular e esta assinar a Super-Licença emitida pela FISA.

4 - A licença seria emitida ao piloto do qual estaria comprometido para guiar durante a temporada em curso.

Niki Lauda entendeu isto como uma espécie de "segunda propriedade" por parte das equipas aos pilotos que o guiavam. Já não lhe bastava os pilotos estarem comprometidos a uma determinada equipa, isto poderia significar - embora o regulamento não o especificasse - que caso a equipa despedisse algum piloto, este não poderia guiar para uma outra equipa, pois era ela que tinha a Super-Licença, e tinha a proteção da FISA, que nessa altura era liderada por Jean-Marie Baleste, que dizia o que o piloto podia ou não fazer. Para além disso, a sua permanência mínima teria de ser de três temporadas e os pormenores financeiros teriam de ser revelados a público. E claro, abstinham-se de criticar a FISA.

Lauda falou imediatamente com o então presidente da Grand Prix Drivers Association, o francês Didier Pironi, e perguntou sobre este assunto. Ele disse que o assunto tinha sido conversado com a FISA e tinha acordado com ela, mas cedo ele mesmo consciencializou-se que aquilo que tinham acordado não era nada mais, nada menos, do que a cedência dos direitos dos pilotos às equipas. Em suma, eles tinham se tornado em mercadoria.

Com a temporada a começar cedo no campeonato - seria o último ano em que esta começaria no mês de Janeiro - máquinas e pilotos rumaram a Kyalami, mais a FISA e a FOCA, de Bernie Ecclestone, com o intuito de resolver a situação criada. Contudo, na quarta-feira antes da corrida, ambas as partes tinham chegado a um impasse, sem que ambas as partes cedessem no que quer que seja.

As coisas precipitaram-se, contudo, na quinta-feira de amanhã, quando um autocarro creme apareceu no paddock de Kyalami e os pilotos eram levados, um por um, para dentro desse autocarro. Dentro dele estavam Niki Lauda e Didier Pironi, que tinham decidido convocar uma reunião de emergência da GPDA, que iria acontecer no hotel onde estavam hospedados, o Sunnyside Park Hotel. Os pilotos mais novos estavam relutantes em ir, mas foram persuadidos pelos mais velhos a aderirem. Somente dois pilotos não vão: os veteranos Jacky Ickx e o Jochen Mass, mas este não tinha sido avisado do que ia acontecer.

Na pista ficava Didier Pironi, que discutia com Jean-Marie Balestre e Bernie Ecclestone a cedência de ambas as partes neste caso. Estranhamente, neste campo estavam do mesmo lado, dadas as constantes guerras entre ambas as partes nos últimos três anos, a famosa "Guerra FISA-FOCA". Mas quem não achava piada nenhuma eram os organizadores do GP sul-africano, que no ano anterior tinham sido vítimas da política entre FISA e FOCA, e estavam a ver tudo a repetir-se de novo. Assim, tentaram primeiro impedir a saída dos pilotos do circuito com uma carrinha Volkswagen - retirada por Jacques Laffite - e depois ameaçaram apreender todos os carros para cobrir os prejuízos. FISA e FOCA decidiram então elevar a fasquia e ameaçar todos os pilotos de um banimento permanente. Mais tarde nesse dia, os organizadores anunciaram que a corrida tinha sido adiada por uma semana, tempo para que - segundo eles - pudessem contratar outros pilotos para substituir os que boicotavam.

A reação dos pilotos foi algo surpreendente: fizeram finca-pé, barricando-se no Sunnyside Park Hotel, e decidiram dormir juntos, para que os diretores de equipa não tentassem ir buscar os seus pilotos para correrem no dia seguinte, e o boicote perdesse força. Colocaram um piano nesse enorme quarto, para que Elio de Angelis pudesse tocar Chopin, e Gilles Villeneuve um "ragtime" de Scott Joplin, e levaram enormes cobertores, para dormirem todos juntos, com duplas algo engraçadas: Alain Prost dormiu com Gilles Villeneuve, Niki Lauda com Riccardo Patrese ou Nelson Piquet com Carlos Reutemann. Entretanto, na sala de jantar, as mulheres e namoradas de pilotos atiravam pedaços de pão a Jean Marie Balestre, fazendo também a sua parte neste protesto.

Durante a noite, haviam pilotos que faziam vigília para evitar deserções, mas houve uma: Teo Fabi, um recém-chegado à Formula 1, e que iria correr na Toleman. Lá foi ele para a pista no dia seguinte, mas os pilotos já tinham perdido respeito pela personagem. E na sexta-feira - a corrida foi no sábado - à medida que se aproximavam as horas para a segunda sessão de qualificação, a FISA e os organizadores cederam, afirmando que o assunto iria ficar congelado e que os pilotos não sofreriam sanções durante o final da semana. Os pilotos tinham temporariamente ganho a batalha, e a corrida prosseguiu como planeado.

No final, Alain Prost vencera a corrida, com Carlos Reutemann e René Arnoux a acompanhá-lo no pódio. A FISA decidiu reinstaurar as suspensões, mas o Tribunal de Apelo reverteu a decisão a favor dos pilotos.

Este episódio pode ter acabado bem, mas mal todos sabiam que este seria o primeiro de muitos episódios de um ano atribulado na Formula 1…    

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Sobre o Autor

É o "alter ego" de Paulo Alexandre Teixeira, um português que nasceu no Brasil a 12 de Julho de 1976. É jornalista de profissão, formação e convicção, com tendência para escrever compulsivamente quando o assunto é automobilismo. É solteiro, gosta do Benfica (ninguém é perfeito...), e vê Formula 1 desde 1982.

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