Os 20 anos da saga Andrea Moda (parte I)

Por Paulo Teixeira - Nenhum comentário

Há vinte anos, a Formula 1 era um mundo diferente, onde equipas tremendamente profissionais e marcas de automóveis podiam conviver perfeitamente com estruturas amadoras, construídas por oportunistas que viam na Formula 1 como um enorme chamariz para as suas excentricidades, ou então para propósitos mais negros como a lavagem de dinheiro, por exemplo. O final dos anos 80, com a abolição dos motores Turbo, viu a Formula 1 expandir-se para níveis nunca alcançados, com grelhas de 40 carros, ao qual obrigou a FIA a construir uma pré-qualificação, para poder colocar 30 carros nos treinos, do qual escolhiam 26.

Equipas como a Onyx, AGS, Life, Coloni ou Eurobrun surgiram por esses dias, lutando por um lugar na qualificação ou na grelha de partida, com tostões, e muitas vezes mais não faziam do que "fazer número", derretendo as esperanças de jovens pilotos em brilhar na categoria máxima do automobilismo. E em 1992, muitas dessas equipas tinham desaparecido, mas a vontade de fazer numero ainda existia. Como aconteceu a Andrea Sassetti, que no final de 1991 decidiu comprar a Coloni e fazer a sua própria equipa. 

Sassetti era um excêntrico italiano, empresário da noite que queria dar nas vistas, e foi graças a isso que surgiu a aventura daquela que muitos afirmam ser a pior equipa da história da Formula 1. Sim, acho que há pior do que a Life. Chama-se Andrea Moda.

Af. Sul 92 9.jpgComo foi dito atrás, no final de 1991, a Coloni estava à venda. A equipa nunca tinha alcançado a qualificação desde meados de 1989, quando teve dois carros e Roberto Moreno como piloto. Tentativas em 1990, com o "boxer" da Subaru e com pilotos como Bertrand Gachot, Pedro Matos Chaves e Naoki Hattori deram em zero e Coloni decidiu vender a sua equipa - menos competitiva que as melhores equipas da Formula 3000 - a preço de desconto a Sassetti.

Andrea Sassetti era um jovem industrial, então com 32 anos, com interesses na industria do calçado, mas que também tinha casas noturnas em Itália. Personalidade algo controversa, achava que a Formula 1 seria o melhor canal para publicitar o seu nome. Com a compra da equipa Coloni, ficou com grande parte do "staff" e o chassis C4, alargando-a para dois carros. Adquiriu motores V10 da Judd e dois pilotos italianos: Alex Caffi e Enrico Bertaggia.

Só que desde o inicio que as coisas não iriam ser fáceis. Via-se que era Sassetti que mandava na equipa, e ele começou a fazer uma birra para que não pagasse os cem mil dólares obrigatórios para qualquer nova equipa poder correr no Mundial de Formula 1, pois alegava dizer que não era uma equipa nova, tinha apenas comprado o lugar da Coloni. E a sua justificação era válida: a March tinha voltado à sua antiga designação, depois de duas temporadas como Leyton House, e a Footwork nada tinha pago para meter o seu nome em substituição da Arrows. Só que Bernie Ecclestone achou que isso não aplicava com a Andrea Moda e exigiu os cem mil dólares, caso contrário, não corria.

Entretanto, Sassetti mandou os carros para Kyalami, e montou um deles para Alex Caffi porque... não havia peças suficientes para o segundo carro. E mecânicos também. Mas apesar de ter dsado umas voltas na quinta-feira da corrida, a FIA excluiu-os por causa da história dos cem mil. Sassetti, contrariado mas não vencido, pagou. E pediu à Simtek para que encomendasse um novo chassis a Nick Wirth, porque ele sabia que com aquele C4 da Coloni, não ia a lado algum.

Mónaco 92 2.jpgWirth aproveitou o chassis desenhado para o projeto abortado da BMW em 1990 - que depois se batizaria de S921 - e modificou o suficiente para estar conforme os regulamentos de segurança de então. Em pouco tempo, os carros foram feitos e enviados às peças para o México, mas não ficaram prontos a tempo de darem umas voltas no Autódromo Hermanos Rodriguez. Caffi e Bertaggia, que aproveitaram o fim de semana para apanhar sol nas bancadas mexicanas, acharam que aquela brincadeira foi longe demais e foram embora. Mas como Sassetti não queria dar de vencido, afirmou que os tinha despedido. E foi sem testes, "shakedowns" ou pilotos que a equipa foi ao Brasil, a terceira prova do ano.

Aí, com os carros prontos, lá encontrou os seus pilotos: o brasileiro Roberto Moreno e o britânico Perry McCarthy. Tudo resolvido? Não. Pouco depois, a FIA decidiu revogar a Super-Licença ao britânico, por achar que não tinha dado suficientes quilómetros ao volante de um Formula 1. Assim sendo, somente Moreno foi o piloto que pode correr nesse final de semana de Interlagos. Ficou a uns pouco credíveis 15 segundos dos pilotos da frente, não se qualificando.

Em Imola, quarta prova do ano, houve mais controvérsia. Enrico Bertaggia afirma a Sassetti que quer voltar à equipa, acenando com um suposto patrocínio de um milhão de dólares. Como na altura o processo de McCarthy ainda não tinha sido resolvido, acedeu, mas depois a FIA devolveu a Super-Licença ao britânico, algo que ele já não queria. Pediu o regresso de Bertaggia, mas a FIA disse que não, que tinha feito as devidas substituições. Contrariado, aceitou. E fez bem, porque aparentemente, esse dinheiro não existia. E mesmo que sim, apenas havia um carro pronto, o de Moreno. E como sempre, não conseguiu a pré-qualificação.

De Imola, o pelotão passa para Barcelona, onde acontece a imagem mais famosa do campeonato. Naquela fria sexta-feira de primavera, Moreno deu apenas uma volta no seu carro até que o seu motor explodiu. Apressados, construíram o segundo carro em contra-relógio, para dar uma chance a McCarthy. Ele sentou no carro, pô-lo a funcionar, andou vinte metros e... acabou. Nem sequer chegou a sair do pitlane. A imagem de McCarthy ao lado do seu carro deu origem a várias piadas na altura e foi a imagem da autobiografia do futuro "The Stig" no Top Gear: "Flat Out, Flat Broke".

Amanhã, conto a segunda e última parte.

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Sobre o Autor

É o "alter ego" de Paulo Alexandre Teixeira, um português que nasceu no Brasil a 12 de Julho de 1976. É jornalista de profissão, formação e convicção, com tendência para escrever compulsivamente quando o assunto é automobilismo. É solteiro, gosta do Benfica (ninguém é perfeito...), e vê Formula 1 desde 1982.

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