Falar sobre os 700 Grandes Prémios da equipa de Woking,
comemorados no passado domingo, no GP da Coreia do Sul é um feito
raro, num mundoem mudança. A McLarené uma das grandes equipas da
Formula 1, pela sua grande história e pelos títulos conquistados.
Em termos estatísticos, a McLaren é a segunda equipa mais antiga da
Formula 1, apenas superada pela Ferrari. E é sobre a história da
marca que se fala aqui.
As origens da marca

Bruce McLaren, neozelandês de nascimento, chegou à Europa em
1958 para competir na Formula 1. Depois de três vitórias na Cooper,
entre 1959 e 62, no final de 1965, estava insatisfeito com o rumo
que a equipa demonstrava. Com o surgimento de novos regulamentos
nos motores e3 litrosna temporada de 1966, McLaren decidiu
construir o seu próprio chassis, em conjunto com Teddy Mayer,
Gordon Coppuck e Tyler Alexander, entre outros. Quando o estreia no
GP do Mónaco de1966, aprimeira corrida da era dos3 litros, se
observou o piloto neozelandês a alinhar no seu próprio carro,
poucos pensariam que a sua longevidade seria algo que Bruce McLaren
desejaria, mas provavelmente não esperaria vê-lo alcançar tal
numero 45 anos mais tarde.
Apesar das origens difíceis, cedo McLaren se torna bem sucedido.
Construindo máquinas para a Formula 1 e para a Can-Am, contrata o
seu compatriota Dennis Hulme e no inicio de 1968, com o modelo M7A,
brilha nas pistas. A primeira vitória na Formula 1, no GP da
Belgica de 1968, é da sua autoria, e na norte-americana Can-Am, ele
e Dennis Hulme venceram tantas corridas que o campeonato de 1969
foi chamado de forma não oficial de "The Bruce and Denny Show",
pelo fato de terem vencido todas as onze provas da temporada de
1969. E por essa altura, também começaram a construir chassis para
a IndyCar.
Vida após a morte do fundador e o primeiro título de
Construtores
A 2 de junho de 1970, no circuito britânico de Goodwood, quando
treinava com a sua máquina de Can-Am, Bruce McLaren perde o
controle do seu modelo M8D e bate com posto de comissários,
causando-lhe morte imediata. Apesar do choque desta morte, a equipa
continuou a senda vitória graças a personagens como Tyler Alexander
e Teddy Mayer, e um bom piloto como o seu compatriota Dennis Hulme.
Com isso, a estrutura conseguiu não só aguentar o impacto desse
desaparecimento como também partiu dali para o sucesso.
Em 1972 aconteceu a sua primeira grande vitória através de Mark
Donohue, que subuiu ao lugar mais alto do pódio nas500 Milhasde
Indianápolis, um ano depois de Revson ter alcançado o segundo posto
na mesma corrida.
E em 1973, Revson já estava na equipa oficial quando surgiu o
modelo M23, o primeiro chassis marcante. Desenhado por Gordon
Coppuck, foi um dos mais marcantes da década de1970, apar do Lotus
72 ou 79, bem como o modelo Tyrrell P34 de seis rodas. Nas seis
temporadas que durou, e foi pilotado - oficial e oficiosamente -
por personagens como Dennis Hulme, Emerson Fittipaldi, Jody
Scheckter, James Hunt, Gilles Villeneuve e Nelson Piquet, venceu
dezasseis corridas e deu dois títulos de pilotos a Fittipaldi e a
Hunt, bem como o seu primeiro título de Construtores, na temporada
de 1974. E foi nessa altura que obtiveram o patrocinio da Marlboro,
que os acompanhou até 1996.

Contudo, no final da década de 70, modelos como o M26 e o M28
foram rotundos fracassos e a McLaren viveu uma lenta decadência do
qual fez com que no final de1980, aMarlboro tomasse uma atitude e
forçasse Teddy Mayer a juntar forças com outra equipa que a marca
de tabaco apoiava, na Formula 2. Era a Project Four e o seu chefe
de equipa era um jovem de 32 anos chamado Ron Dennis.
Chassis em fibra de carbono, Niki Lauda e Alain
Prost
Em 1981, o primeiro projeto dessa fusão, o MP4/1, fez também
história ao ser o primeiro chassis feito de fibra de carbono,
desenhado por John Barnard, um engenheiro britânico que tinha
alcançado sucesso nos Estados Unidos. Nas mãos de John Watson,
alcançou em Silverstone a primeira vitória da marca em quatro anos.
E no final do ano, Ron Dennis aplicou um golpe de génio ao
convencer Niki Lauda para voltar a competir, dois anos após a sua
retirada de competição. Com Lauda e Watson ao leme, nas temporadas
de 1982 e 83, o MP4/1 venceu por cinco vezes eem Long Beach,
conseguiu a primeira dobradinha da sua história.

Por essa altura, já Teddy Mayer tinha saído da equipa e Ron
Dennis pretendia um bom motor Turbo para manter a competitividade.
Aliado a Mansour Ojjeh, dono da Thecniques de Avant Garde (TAG) e
seu sócio na Project Four, encomenda um motor Turbo à Porsche, que
está pronto no final de 1983. Apesar de ter sido estreado aí,
somente alcança o sucesso na temporada seguinte, com um novo
chassis, o MP4/2, com Lauda e o seu novo companheiro e equipa, o
francês Alain Prost.
Nessa temporada, a equipa volta a ganhar o campeonato de
construtores, dez anos depois do primeiro, e dá a Lauda o seu
primeiro título de pilotos após o seu regresso, e o terceiro da sua
carreira. No ano seguinte invertem-se as posições e Prost consegue
o primeiro dos seus quatro títulos, que repete em 1986, batendo
inesperadamente os dominadores Williams-Honda de Nigel Mansell e
Nelson Piquet. Há um declínio em 1987, embora Prost tenha
conseguido mais um marco na formula 1, ao bater no Estoril o
recorde de vitórias de Jackie Stewart.
Honda, Ayrton Senna e a luta de titãs

Depois da saída de Niki Lauda, no final de 1985, passaram pela
equipa pilotos como o finlandês Keke Rosberg e o sueco Stefan
Johansson, mas não incomodaram muito Prost. Apenas em 1988, quando
a McLaren troca os TAG-Porsche pelos Honda e recebe o brasileiro
Ayrton Senna, vindo da Lotus, é que a marca chega a uma nova era
dourada. Com Gordon Murray (ex-Brabham) no lugar de John Barnard,
desenhou aquele que muitos consideram como a máquina perfeita: o
McLaren MP4/4, onde Senna e Prost conseguiram vencer em 15 das 16
provas dessa temporada, um domínio que nunca tinha sido alcançado
antes ou depois. E poderia ter sido total se Senna tivesse sido
mais paciente quando dobrava o Williams de Jean-Louis Schlesser em
Monza...
Contudo, Senna conseguiu bater Prost na luta pelo título a dois,
conseguindo o seu primeiro campeonato. O dominio continuou em 1989,
mas a relação entre os dois pilotos, que até ali tinha sido
cordial, transformara-se um duelo mortal, com os dois a
transformarem-se em inimigos, numa escalada de tensão que acabaria
no GP do Japão, em Suzuka, com a polémica batida de Prost em Senna
e consequente desclassificação do piloto brasileiro, que deu a
Prost o seu terceiro título mundial. No final do ano, o piloto
francês abandonou a McLaren e Senna era o incontestado primeiro
piloto, lançado para mais dois titulos mundiais para ele e para a
marca, em 1990 e 91.
A travessia do deserto e o regresso aos títulos com Mika
Hakkinen

Em1992, aHonda retira-se da competição, mas por essa altura,
eles já tinham sido batidos pela Williams, agora com motor Renault.
Ayrton Senna dava o seu melhor, mas não conquistou qualquer título
mundial até sair da equipa, em 1993. Mas já tinha deixado um bom
sucessor na equipa, na figura do jovem e talentoso finlandês Mika
Hakkinen. Só que até1997, aequipa atravessará momentos conturbados,
com a troca de motores, da Cosworth para a Mercedes, passando pela
Peugeot em 1994, e a seca de vitórias, que durou 50 corridas
(Austrália1993 aAustrália 1997) quando o escocês David Coulthard
conseguiu uma inesperada vitória.
Mas só será com a chegada do projetista Adrian Newey, vindo da
Williams, no final de 1997, que a McLaren dá o salto de qualidade
que já prometia. Tinham os motores Mercedes desde 1995 e os pilotos
indicados, mas somente em 1998, com o MP4-13, é que a equipa
regressa aos títulos de Pilotos e Construtores. O piloto finlandês,
então com 30 anos, tornou-se no maior rival de Michael Schumacher
no seu auge e foi o unico que conseguiu batê-lo em 1998 e 99,
conquistando os seus unicos títulos como piloto. Continuou a ser o
maior rival da Ferrari ao longo da primeira década do milénio, mas
não conseguiam superiorizar-se ao dominio da Ferrari e de Michael
Schumacher.
No final de 2001, Mika Hakkinen retirou-se da competição e foi
substituido por outro finlandês, Kimi Raikonnen de seu nome. apesar
do enorme talento e das várias possibilidades que teve para
alcançar o título em 2002 e 2003, foi sempre batido pelo Ferrari de
Schumacher. E quando por fim houve hipótese de bater os Ferrari, a
hipótese foi aproveitada pela Renault, que graças a Fernando
Alonso, conquistou títulos em 2005 e 2006.
Por essa altura, houve mudanças na estrutura. Adrian Newey saiu
da equipa para rumar à Red Bull e no final de 2006, foi a vez de
Kimi Raikonnen rumar à Ferrari. Ron Dennis, o patrão da equipa,
decidiu contratar para o seu lugar o piloto espanhol e para seu
companheiro de equipa - em substituição de Juan Pablo Montoya, um
flop - promoveu a entrada de Lewis Hamilton, um talento que vinha
das categorias de base.
Do sonho à catástrofe, e de volta à ribalta
A temporada de 2007 tinha tudo para ser uma de sonho, mas desde
cedo que as tensões vieram ao de cima. O piloto espanhol não
esperava que Hamilton fosse tão bom e estava à espera de um
estatuto de primeiro piloto que acabou por não ter. Para piorar as
coisas, em junho rebenta o escândalo "Stephneygate", onde a equipa
foi acusada de espionagem ao projeto da Ferrari entre Mike
Coughlan, engenheiro da McLaren, e Nigel Stepney, da Ferrari. As
coisas arrastam-se até setembro, quando a FIA decide multar a
McLaren em 500 milhões de dólares e o desclassifica do mundial de
Construtores.

Esta decisão obriga Ron Dennis a abandonar a equipa no
dia-a-dia, entregando tal cargo a Martin Withmarsh, o seu numero
dois. No final do campeonato, este foi perdido a favor do Ferrari
de Kimi Raikonnen. Mas no ano seguinte, com Fernando Alonso a sair
da equipa e Lewis Hamilton como piloto numero um, a equipa reergueu
das cinzas para alcançar ambos os titulos, de Construtores e
Pilotos, com Lewis Hamilton, numa decisão de cortar a respiração,
na última curva da última volta da última corrida do ano, em
Interlagos.
Parecia que as coisas iriam continuar em 2009, mas a equipa
adaptou-se mal aos novos regulamentos e viu-se passada pela Brawn
GP e pela Red Bull, demorando algum tempo para reagir. Apesar de
tudo, a McLaren acabou o ano com duas vitórias e o terceiro lugar
no campeonato de Construtores, à frente da Ferrari. As coisas
melhoraram um pouco em 2010 com a contratação de Jenson Button, o
campeão do mundo no ano anterior, com a Brawn GP, e nas duas
últimas temporadas, conseguiram o segundo lugar no Mundial de
Construtores, apenas batida pela Red Bull.