Victory Race de 1971 – A derradeira corrida de Jo Siffert

Por Paulo Teixeira - 1 Comentários

Há precisamente quarenta anos,em Brands Hatch, mãquinas e pilotos reuniam-se para prestar homenagem a Jackie Stewart e à Tyrrell pelos títulos conquistados. Mas a corrida, que era para ser um momento de alegria e sã competição ente eles, transformou-se numa tragédia que reclamaria a vida do suíço Jo Siffert.

Inicialmente, esta data estava preenchida com a realização do GP do México, última prova da temporada. Contudo, os eventos do ano anterior, que colocaram a nu as deficiências na pista, bem como o acidente mortal de Pedro Rodriguez, companheiro de Siffert na BRM e da Porsche nas corridas de Endurance, em Julho, fizeram com que os organizadores decidissem cancelar a corrida. No seu lugar, foi organizada uma World Championship Victory Race, em honra de Jackie Stewart, o novo campeão do mundo.

Victory Race 71.jpg

Vinte e sete carros alinharam na corrida, mas das equipas de Formula 1 que correram ao longo do ano, somente as britânicas marcaram presença: Lotus, Brabham, Tyrrell, March, McLaren e BRM. Ao todo eram catorze carros presentes. Os restantes treze bólidos vinham da Formula 5000, uma competição mais barata onde se construíam chassis de várias marcas e se colocariam um motor Ford ou Chevrolet V8. Nornalmente esses carros eram mais lentos do que os Formula 1 em cerca de três segundos, mas entre os que alinharam nessa categoria estavam o sueco Reine Wisell, os britânicos Trevor Taylor e Guy Edwards e o australiano Frank Gardner.

O poleman foi Jo Siffert, que conseguiu primeiro o tempo de 1.22,8 segundos do que o seu companheiro Peter Gethin, que marcou… exactamente o mesmo tempo! Emerson Fittipaldi era o terceiro, seguido por Ronnie Peterson, no seu March. Mike Hailwood, no seu Surtees, era quinto, seguido por Jackie Stewart, o campeão do mundo.  Tim Schenken foi o sétimo, seguido de Hownden Ganley, Jackie Oliver, no seu McLaren, e John Surtees.  Na 11ª posição alinhava um argentino que competia pela primeira vez num carro de Formula 1: Carlos Reutemann.

Dos carros de Formula 5000, o melhor foi Frank Gardner, o único que fez um tempo melhor do que um Formula 1, neste caso, o carro de Henri Pescarolo.

Victory Race 71 4.jpg

O tempo estava agradável naquele 24 de Outubro de 1971em Brands Hatch, quando máquinas e pilotos se preparam para as 40 voltas que iria ter aquela corrida. Na largada, Gethin sai melhor que Siffert e salta para a liderança, seguido de Fittipaldi e do piloto suíço, ameaçado pelo March de Peterson. Quando desciam para a Graham Hill Bend, Peterson toca em Siffert e ambos vão para a relva, mas regressam à corrida. Mal se sabia que esse toque tinha feito com que o braço da suspensão traseira esquerda de Siffert ficasse danificado, mas não o suficiente para abrandar o seu ritmo. Isso viria a ser o fator fatal.

A corrida prosseguiu com Gethin a tentar escapar de Fittipaldi, enquanto que Hailwood subira para o terceiro posto e pressionava o brasileiro. Atrás, Peterson e Siffert tinham chegado ao quarto e quinto postos, respectivamente, com Stewart logo atrás. Na segunda volta, Pescarolo é abalroado pelo carro de Wisell na curva Druids, mas ambos escapam ilesos. Algumas voltas depois, nova colisão, quando Peterson toca no Surtees de Hailwood quando o tentava passar para o terceiro posto. Ambos os carros foram para as boxes, onde os estragos sofridos pelo britânico determinavam que não podia continuar. Quanto a Peterson, depois de um rápida reparação, regressou à pista, uma volta atrás do pelotão. Com isso, Siffert subiu para o terceiro posto, mas perdeu-o a favor de Stewart e as coisas pareciam estáveis até à fatídica volta 14.  

Nessa volta, quando passava pela Hawthorn Bend, a suspensão cedeu e perdeu o controlo do seu carro. Este foi de um lado para o outro da pista e bateu no muro de terra que estava a ladear a pista, virou-se e rompeu o tanque de combustível, pegando fogo quase de imediato. Os bombeiros chegaram depressa e tentaram apagar o incêndio, que era difícil devido à elevada gasolina que tinha o carro e o calor que isso provocava. Quando por fim resgataram o piloto, este estava já morto. Tinha 35 anos.

Victory Race 71 2.jpg

O acidente tinha também causado o bloqueio da pista devido às chamas, e os carros tiveram de parar, com os pilotos, horrorizados, a assistir ao final da vida de um dos seus companheiros. A corrida foi declarada como concluída na volta 14, com Peter Gethin a ser vencedor, seguido por Fittipaldi e Stewart.

No subsequente inquérito às circunstâncias do seu acidente mortal, descobriram que o acidente em si não foi a causa da sua morte, nem o incêndio subsequente, mas sim o fumo que inalou. Incapaz de sair do seu carro, e com os extintores a não funcionarem ou a funcionarem de modo deficiente, e o resgate a ser dificultado devido às altas temperaturas, o desfecho era inevitável. Isso fez com que de futuro, os carros fossem obrigados a ter um extintor interno que atuasse automaticamente em caso de incêndio. Para além disso, todos os pilotos foram obrigados a ter um tubo de oxigénio ligado aos seus capacetes, para que continuem a respirar mesmo em situações de limite.

Poucos dias depois, o funeral de Siffert, na sua Friburgo natal, foi acompanhado por mais de cinquenta mil pessoas, e o seu caixão foi transportado em cima de um Porsche 917 da John Wyer Racing, o carro no qual conseguiu algumas das suas maiores vitórias da sua carreira.

 

Compartilhar

Sobre o Autor

É o "alter ego" de Paulo Alexandre Teixeira, um português que nasceu no Brasil a 12 de Julho de 1976. É jornalista de profissão, formação e convicção, com tendência para escrever compulsivamente quando o assunto é automobilismo. É solteiro, gosta do Benfica (ninguém é perfeito...), e vê Formula 1 desde 1982.

1 Comentário on "Victory Race de 1971 – A derradeira corrida de Jo Siffert"

  1. Roberto Enes Lobão terça-feira, 25 de outubro de 2011 19:41:22

    Muito bom. Quem gosta da História e das histórias da F1, como eu, agradece.

Fazer Comentarios

Você deve fornecer seu nome e e-mail, ou login