Há precisamente quarenta anos,em Brands Hatch, mãquinas e
pilotos reuniam-se para prestar homenagem a Jackie Stewart e à
Tyrrell pelos títulos conquistados. Mas a corrida, que era para ser
um momento de alegria e sã competição ente eles, transformou-se
numa tragédia que reclamaria a vida do suíço Jo Siffert.
Inicialmente, esta data estava preenchida com a realização do GP
do México, última prova da temporada. Contudo, os eventos do ano
anterior, que colocaram a nu as deficiências na pista, bem como o
acidente mortal de Pedro Rodriguez, companheiro de Siffert na BRM e
da Porsche nas corridas de Endurance, em Julho, fizeram com que os
organizadores decidissem cancelar a corrida. No seu lugar, foi
organizada uma World Championship Victory Race, em honra de Jackie
Stewart, o novo campeão do mundo.

Vinte e sete carros alinharam na corrida, mas das equipas de
Formula 1 que correram ao longo do ano, somente as britânicas
marcaram presença: Lotus, Brabham, Tyrrell, March, McLaren e BRM.
Ao todo eram catorze carros presentes. Os restantes treze bólidos
vinham da Formula 5000, uma competição mais barata onde se
construíam chassis de várias marcas e se colocariam um motor Ford
ou Chevrolet V8. Nornalmente esses carros eram mais lentos do que
os Formula 1 em cerca de três segundos, mas entre os que alinharam
nessa categoria estavam o sueco Reine Wisell, os britânicos Trevor
Taylor e Guy Edwards e o australiano Frank Gardner.
O poleman foi Jo Siffert, que conseguiu primeiro o tempo de
1.22,8 segundos do que o seu companheiro Peter Gethin, que marcou…
exactamente o mesmo tempo! Emerson Fittipaldi era o terceiro,
seguido por Ronnie Peterson, no seu March. Mike Hailwood, no seu
Surtees, era quinto, seguido por Jackie Stewart, o campeão do
mundo. Tim Schenken foi o sétimo, seguido de Hownden Ganley,
Jackie Oliver, no seu McLaren, e John Surtees. Na 11ª posição
alinhava um argentino que competia pela primeira vez num carro de
Formula 1: Carlos Reutemann.
Dos carros de Formula 5000, o melhor foi Frank Gardner, o único
que fez um tempo melhor do que um Formula 1, neste caso, o carro de
Henri Pescarolo.

O tempo estava agradável naquele 24 de Outubro de 1971em Brands
Hatch, quando máquinas e pilotos se preparam para as 40 voltas que
iria ter aquela corrida. Na largada, Gethin sai melhor que Siffert
e salta para a liderança, seguido de Fittipaldi e do piloto suíço,
ameaçado pelo March de Peterson. Quando desciam para a Graham Hill
Bend, Peterson toca em Siffert e ambos vão para a relva, mas
regressam à corrida. Mal se sabia que esse toque tinha feito com
que o braço da suspensão traseira esquerda de Siffert ficasse
danificado, mas não o suficiente para abrandar o seu ritmo. Isso
viria a ser o fator fatal.
A corrida prosseguiu com Gethin a tentar escapar de Fittipaldi,
enquanto que Hailwood subira para o terceiro posto e pressionava o
brasileiro. Atrás, Peterson e Siffert tinham chegado ao quarto e
quinto postos, respectivamente, com Stewart logo atrás. Na segunda
volta, Pescarolo é abalroado pelo carro de Wisell na curva Druids,
mas ambos escapam ilesos. Algumas voltas depois, nova colisão,
quando Peterson toca no Surtees de Hailwood quando o tentava passar
para o terceiro posto. Ambos os carros foram para as boxes, onde os
estragos sofridos pelo britânico determinavam que não podia
continuar. Quanto a Peterson, depois de um rápida reparação,
regressou à pista, uma volta atrás do pelotão. Com isso, Siffert
subiu para o terceiro posto, mas perdeu-o a favor de Stewart e as
coisas pareciam estáveis até à fatídica volta 14.
Nessa volta, quando passava pela Hawthorn Bend, a suspensão
cedeu e perdeu o controlo do seu carro. Este foi de um lado para o
outro da pista e bateu no muro de terra que estava a ladear a
pista, virou-se e rompeu o tanque de combustível, pegando fogo
quase de imediato. Os bombeiros chegaram depressa e tentaram apagar
o incêndio, que era difícil devido à elevada gasolina que tinha o
carro e o calor que isso provocava. Quando por fim resgataram o
piloto, este estava já morto. Tinha 35 anos.

O acidente tinha também causado o bloqueio da pista devido às
chamas, e os carros tiveram de parar, com os pilotos, horrorizados,
a assistir ao final da vida de um dos seus companheiros. A corrida
foi declarada como concluída na volta 14, com Peter Gethin a ser
vencedor, seguido por Fittipaldi e Stewart.
No subsequente inquérito às circunstâncias do seu acidente
mortal, descobriram que o acidente em si não foi a causa da sua
morte, nem o incêndio subsequente, mas sim o fumo que inalou.
Incapaz de sair do seu carro, e com os extintores a não funcionarem
ou a funcionarem de modo deficiente, e o resgate a ser dificultado
devido às altas temperaturas, o desfecho era inevitável. Isso fez
com que de futuro, os carros fossem obrigados a ter um extintor
interno que atuasse automaticamente em caso de incêndio. Para além
disso, todos os pilotos foram obrigados a ter um tubo de oxigénio
ligado aos seus capacetes, para que continuem a respirar mesmo em
situações de limite.
Poucos dias depois, o funeral de Siffert, na sua Friburgo natal,
foi acompanhado por mais de cinquenta mil pessoas, e o seu caixão
foi transportado em cima de um Porsche 917 da John Wyer Racing, o
carro no qual conseguiu algumas das suas maiores vitórias da sua
carreira.